sábado, 14 de março de 2009

Doce Ilusão

Eu era um jovem de recentes dezoito anos que cursava filosofia na faculdade de São Fischer. Todos os dias úteis, gastava quarenta minutos e exatos seis reais diários em transporte coleivo. Nada que me causasse muito estresse - é fácil acostumar-se com o inevitável. Chegando ao curso, nada senão grandes e incompreensíveis pensamentos humanamente inúteis. Na saída, entretanto, divertia-me observar o comportamento dos ditos cidadãos legais. Meus colegas fumando, ainda que soubessem desde crianças que seus pulmões estavam sendo pulverizados; algumas meninas trajando uniformes sexuais que muito me interessavam; adultos apressados que sequer imaginam quão logo descansarão obrigados pela mesma natureza que hoje desprezam - a mais justa das vinganças; velhos, uns esperando o fim chegar, outros iludindo-se. Citaria os mendigos, mas não são cidadãos. Por fim, eu mesmo, um jovem parado em frente a um edifício, observando semelhantes como se não fossem tais. Sentia-me um idiota e fechava meu ciclo, que sempre me perseguia. A ideia de fazer sempre as mesmas coisas em dias diferentes deteriorava meu cérebro.

Não obstante, seguia para mais um banquete autofágico nas ruas tumultuadas da cidade em um belo dia chuvoso de agosto. Lembro-me bem de chegar à faculdade apressado, devido ao atraso do ônibus. Era então segunda-feira e tive de esperar pelo segundo maldito sinal. Quando entrei, o professor saía com olhares tentadores - ah, se eu portasse uma arma! Meu amigo, Golias, de um metro e noventa, apressou-se a vir até mim. Agradeceu-me pela carta e passou a chamar-me de Nostradamus. Como de costume, não o compreendi, sorri e ignorei cada palavra. Todos os dias do mês tinha me agradecido por algo que não fiz. Dizem que ele me inveja, mas não vejo possibilidades ou motivos; ninguém inveja pouco. Segui assistindo à sequência de ideias coloridas até o fim da tarde, quando o último sinal soou. Liberado, observei as pessoas enquanto aguardava na parada, como de costume. Havia uma senhora segurando um poodle em suas mãos enrugadas, aguardando ao meu lado. O cão latia muito. Aquele berro agudo penetrava meus tímpanos e levava consigo minha audição e alegria. Aos poucos, fui tornando-me um poço de ódio e estresse. Ele não parava. Eu não suportava tamanho incômodo. Ele seguia latindo. Para, para, por favor, para. Ele continuou. Para, para, PARA! ... ele parou. A velha e o próprio cão me olhavam fixamente, como se o culpado fosse eu. "Quem é o culpado?", pensei, mas eles alinda me olhavam fixo. "O que foi?", perguntei em tom grosso e alto, mas ambos sequer piscaram. Algo estava errado; não moviam um só músculo! Se não houvesse o cão, teria fugido antes que aparecesse alguém, mas não, não estavam mortos, nenhum cão morre a gritos, embora as pessoas vivam insistindo. Aproximei-me. Nada; acariciei a cabeça do animal, e o próprio sequer se mexeu. Foi quando notei o extremo silêncio ao meu redor. Virei-me e caí sentado: todos os carros, pessoas, animais e até árvores estavam parados, como em um jogo de vídeo-game. Eu estava começando a enlouquecer.

O sol aparecia novamente e nada mais acontecia. O tecido da minha roupa me deixava agoniado. Pronto. Essas eram as únicas sensações externas que eu percebia. Em minha frente, dezenas de automóveis totalmente imóveis, como gelo, tais quais os motoristas. Aproximei-me de um fusca... "não, logo um fusca?". Andei um pouco mais e deparei-me com uma bela BMW que jamais havia antes tocado. A mulher que o dirigia olhava para a traseira do vectra que estava à sua frente. Eu abri a porta à direita e sentei ao seu lado. Toquei seu rosto - estava quente. Segurei sua mão. Ela estava totalmente vulnerável. Saí do carro e andei pela longa avenida. Todos continuavam em repouso. Poucas vezes me perguntei o que estava acontecendo; a ideia de ter o mundo só para mim estava tapando meus olhos por muito tempo... e por falar em tempo, o relógio! Ele maracava 18h53min, havia vários relógios assim. Sim - estavam parados. O tempo, o mundo e sabe-se lá o que mais estavam completamente parados.

Eu começava a entender que não entendia. Enquanto isso, arrecadei uma boa quantia de dinheiro alheio e guardei tranquilamente nos bolsos. "Será que podem me ver?". Ainda assim, não me achariam quando tudo voltasse ao normal - e pela primeira vez, senti minhas entranhas se contorcendo: e se não voltasse? Para que serviria o dinheiro em um mundo onde só - e totalmente só - eu vivesse? Como eu suportaria passar a vida com estátuas humanas? O que afinal estava acontecendo? Passei por um mendigo que dormia. Ele jamais saberia o que lhe aconteceu. Deixei exatos R$ 300,00 em seu bolso imundo. "Espero que saiba usar". Eu poderia ter tudo que fosse material. E foi o que me motivou a entrar nas lojas de entretenimento. As possibilidades eram tantas, que até perdi o interesse. Fui comer algo. Ah, isso sim, jamais me deixaria desinteressado! Comi todos os chocolates que encontrei. Podia apostar que a empresa não sentiria um centavo de diferença. Foi então que abri todas as embalagens da prateleira. "Agora sim", pensei, pois não havia ninguém para conversar.

Não havia ninguém para conversar.

3 comentários:

Robert Neville disse...

Aguardo a segunda parte.

Sergio disse...

foda.

Paola disse...

tá e o resto? quero o fiiiiim!