quinta-feira, 2 de julho de 2009

Um Post Sobre Futebol

PS: Este texto foi escrito após um acesso de raiva perante a antiga condição estressada de meu adorado pai, hoje (graças a Deus e às maravilhas medicinais) totalmente curado, torando os diálogos a seguir completamente incoerentes com a realidade atual da família.

Peraí, meninas, não julguem pelo título. Eu provavelmente vou favorecê-las muito mais do que aos jovens passivo-capitalistas, fanáticos por essa injusta fábrica de dinheiro que, segundo dizem, é a paixão nacional. E já olhem bem para a foto ao lado... como pode um homem gostar disso?

O negócio é simples: eu não acompanho futebol. Não é questão de gostar ou não; eu sinceramente penso que gosto, não sei se sinceramente ou se minto para mim mesmo, mas a questão é que eu quero e gostaria de gostar. Não, não é essa a questão, droga... enfim, resumo-me ao primeiro smile desde a criação do Tenha Muito Cuidado: :(

Hoje no jantar meu pai falava sobre futebol, e não conseguiu se conter ao me ver quieto e não insatisfeito em frente à sua pessoa na mesa. Era preciso fazer uma crítica. Aproveitou a desculpa do assunto da vez e começou dizendo que eu não gosto de futebol. Tudo bem, pensei, isso vai acabar logo. É... não. Passou a me acusar, ao lado de meu irmão (que, para se opor a mim, sempre acaba apoiando ele nessas discussões bobas), o qual sem razão nenhuma ajudava a me condenar como Herege Futebolístico.

- Fico me perguntando como tu pode ser tão alienado... não vê uma novela, não vê futebol... sobre o que tu conversa com as pessoas?
- Existem mais coisas além de futebol e novela...
- O quê, por exemplo? - velha tática dos exemplos. Quando não se tem o que falar ou argumentar, é sempre bom tentar contradizer o adversário com um simples pedido de exemplos. Infelizmente, eu já dominava essa tática.
- Tu só sabe conversar sobre futebol e novela?
- Não, eu sou um cara (início de frase muito conhecido) que consigo falar com qualquer pessoa, em qualquer lugar. Já tu não consegue falar com ninguém. - acusação infundada, já que ele não me vê 99% dos dias há vários anos.
- Como não? Tu nem me vê durante o dia; mas claro, eu fico calado o dia inteiro, de certo.
- Então quer dizer que tu só não conversa aqui em casa?
- É, basicamente sim.
- Por quê?
- É difícil falar com alguém que só entende de futebol e cerveja.

(Pausa dramática) Confesso que peguei pesado, errando de forma semelhante à dele.

- Tu acha mesmo que sou esse tipo de cara?
- Tu acha mesmo que eu não sei falar com ninguém na rua? - eu acho que sou o primeiro da casa que aprendeu a contra-argumentar as velhas e totalmente inúteis críticas paternas, que nunca acrescentaram sequer um ponto final na vida de nenhum de nós, só servindo para aliviar as tensões do dia de um trabalhador da classe-média brasileira. Essas minhas táticas atuais, no entanto, só o irritam mais, por não poder ficar irritado contra alguém que o contradiz da única maneira que ele não consegue: com fundamento. Meu irmão resolveu se intrometer:

- O mais estranho do Lucas (ele nunca fala diretamente) não é que ele não gosta de futebol. É que ele não gosta de esporte algum. - irritei-me. Ele é o tipo de pessoa que não sabe chutar um cubo de gelo, e que troca um jogo importante por qualquer assunto pessoal.
- Por que isso incomoda vocês? É um defeito não gostar de futebol? - erro meu: não se pode fazer perguntas óbvias, pois a resposta vai ser sempre a não-óbvia, só para dar um impacto dramático.
- É, é um defeito sim! - diz meu pai com toda a razão (ele sempre tem razão).
- Olha o absurdo que tu tá falando! Tu quer impor teus gostos - e eu quis dizer que isso é ignorância, mas não seria adequado enquanto não pago minhas vestimentas - é a mesma coisa que eu dizer que quem não gosta de música é louco! - insisti no erro, sou mesmo um bocó.
- E é! Quem não gosta de música é louco!
- Então a mãe é louca? - ponto positivo pro Conrado. Ele, é claro, muda de assunto.
- Não dá pra entender que uma pessoa da tua idade não gosta de futebol.
- Eu não disse que não gosto, eu só não sinto necessidade de assistir, principalmente quando tá numa fase ruim. Pelo menos não sou hipócrita, eu não gosto de ver perder e não vejo. Mas já que é assim, a partir de amanhã vou assistir todas as partidas contigo, pra não ser mais um alienado ignorante, né?
- Eu nunca te obriguei a assistir, eu nunca te tirei do teu quarto pra ver um jogo comigo, tirei?
- Nem vai, é totalmente absurdo querer obrigar alguém a gostar de alguma coisa, pensamento mais ultrapassado.
- Eu acho que cada um gosta do que quiser (argumento irônico); eu sou feliz (argumento hipócrita) assistindo meu futebol toda quarta, domingo, enquanto teu domingo é sempre igual (argumento ignorante), tu passa com tua namorada no quarto (argumento forçado)... imagino quando tu casar, teus domingos vão ser horríveis (auto-mentira). - Eu senti que ia ser uma total perda de tempo e energia seguir com o assunto, já que a comida estava esfriando. Concordei, esperei mudar o assunto e saí de lá. Meu pai constantemente teve alguns acessos de raiva, aliás, há alguns anos. Infelizmente, deixo-me levar e acabo me irritando também, absorvendo um pouco da energia destrutiva, que a doença do estresse costuma transpassar.

Pergunto-me. Por que eu gostaria de um time, afinal? Uma instituição altamente sem sentido, em constante mudança, nunca estável. O que me faz ser mais gremista, ou menos corinthiano? O local? Então o que me faz ser gremista, e não colorado? Afinal, por que eu deveria admirar um grupo de homens que ganham muito bem para correr e chutar? Por que deveria me orgulhar de um time que existe há cento e poucos anos e é dono de um passado totalmente racista?

Ademais, times... são todos iguais, convenhamos! Flamengo, Corinthians, Grêmio, Inter, Cruzeiro, ora, são jogadores brasileiros, ou até estrangeiros... por que eu devo escolher um time tendo como base o meu local de nascimento, se a base dele não é daqui? Eles perdem, ganham, perdem, empatam... como vou saber se ano que vem vão ganhar mais do que perder, ou vice-versa? Por que diabos, então, sou gremista? Pelo mesmo motivo que sou batizado!

Já, a seleção... tá, concordo que não sou lá muito ufanista, mas é outra coisa. Primeiro, é um time representando todos os outros. Segundo, tudo que é a nível mundial é mais interessante. É como se fosse uma guerra santa, e nós pudéssemos aniquilar com os EUA em 90 minutos. Fora isso, é tradição as constantes vitórias do Brasil, e isso amedronta os outros. Eu não tenho o menor orgulho de ser brasileiro; mas sim de torcer pela seleção.

Deixei-os após tudo isso vendo o jogo do Grêmio. Fui estudar no quarto. Ouvi barulho de tiro vindo dos vizinhos e fui ver o que acontecia. O Grêmio perdia de 2x0, e meu pai levantou-se e foi dormir, dizendo que não tinha mais nem vontade de assistir. Perguntou ao meu irmão se ele continuaria vendo, e este disse que sim, que ia assistir até o final. Saquei na hora. Fui ao meu quarto por mais 10 minutos e voltei à sala silenciosamente.

A que vocês acham que ele estava assistindo?

Bom, o fanático futebolístico não assistia ao jogo coisa nenhuma! Ao contrário disso, algum "interesse pessoal" lhe pareceu mais importante do que ver seu próprio time, e assim que entrei na sala ele trocou rapidamente de canal para que a vergonha fosse amenizada; botou em um canal de documentário. Então senti aquele momento de brilho: era a minha hora.

- Legal o jogo que tu tá assistindo, hein! - puft, tapa na cara. Ele já se sentia culpado antes mesmo de eu chegar. Ainda assim, é claro, tentou argumentar.
- Tu já viu como tá o jogo?
- Ah, achei que era "com o grêmio, onde o grêmio estiver". Que engraçado, isso... na derrota então, todo aquele orgulho cai, e no fim das contas tu assume a mesma postura que eu. A diferença é que eu não sou hipócrita.
- Tá, tá... eu não quero discutir. - se entregou. No dia em que ele achar que tem o mínimo de razão e não quiser discutir, vão encontrar vida na lua.
- Então vou te falar uma coisa. Para de tentar aparecer na frente do pai que fica menos pior pra ti. - fui dormir sem resposta; foi como se eu estivesse envenenando uma velhinha.

Eu não tiro a razão desse egocêntrico promíscuo; é mais coerente querer ver a beleza feminina do que 22 homens suados disputando por bola. Mas às vezes penso que é melhor ser necessariamente transparente quanto às suas decisões, e ser duramente criticado por isso, do que assumir uma postura qualquer só para aparecer, e depois ser pego contrariando-a. Isso, sim, é bem ridículo.

Não sei se é pela carga excessiva de estudo ou se uso isso como desculpa, mas definitivamente não sinto a menor vontade de acompanhar um jogo do Grêmio. Digo Grêmio, e não Inter, porque para mim Inter é sinônimo de Demônio desde meus 5 anos, devido à minha criação quase que medieval. Grêmio é a paz, e eu nem sei por quê, já que não sinto isso de fato, e muito menos ao pensar racionalmente. Banheiros queimados, ódio pelo adversário, brigas de torcida... Paz? Ok, pai, vamos falar de futebol.

...

20 comentários:

Paola disse...

engraçado, nem li e já gostei!

Paola disse...

ah, não acrdito que tenha sido um post que vá agradar só meninas. e como é mesmo a parte de pedir exemplos, sr. Lucas? haha!

sabe, já tinha reparado nessa "tática" do teu irmão de não falar diretamente...

ai, ai, família é coisa triste :)

te amo, meu amor!

Lucas disse...

Tem duas razões para pedir exemplos: uma é pedir sabendo que eles vão ser ditos, fazendo ele te obedecer (mostrando assim superioridade), e esperando qualquer exemplo para ridicularizá-lo depois. A outra forma, que eu uso bastante, é quando se quer mesmo saber um mínimo exemplo, pra um esclarecimento ou para provar uma tese da discussão que recém foi apresentada, ora!

Chupa essa manga, gordinha!

Te amo muito, também! x)))))))))))

Sergio Trentini disse...

Genial, como sempre, meu bagual!
"Auto-mentira" me rendeu sorrisos de urso panda.

Diogo disse...

Muito bom, como sempre.
O mais engraçado é quando alguém vem com a frase "nós ganhamos de lavada", ou algo do gênero. Nós quem? Só pode ganhar (ou perder) quem joga. Eu não entendo direito o que passa na cabeça dessa gente.
Voto por dar umas espadas e uns escudos para os jogadores e largar uns leões no campo, aí a emoção ia ser verdadeira.

Diane disse...

é... o velho problema da tradição.
muito bom, lucas :]

Lucas disse...

hahaha! com espadas e escudos ia ser MUITO mais divertido!

É gente, mas infelizmente a ditadura do futebol ainda vigora.

Abraços futebolísticos.

PS: vocês viram o lateral que o Dunga escalou?

Sergio Trentini disse...

André santos ou Daniel alves? (não tenho senso humoristico hihi)

Gabriel disse...

cara... já pensou em procurar ajuda? xD
total Freud esse teu post... =p

Marcelo disse...

como pedido...

Lucas disse...

valeu, marceloca!

Sergio Trentini disse...

também peço!

R. disse...

Baixa as orelha pro teu pai, magrão. Pai tá sempre certo. Se tu não entendeu agora, imprime e lê no banheiro.

Ponto.

Lucas disse...

Então, já que tu não é meu pai, tu tá errado.

Lisiane disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lisiane disse...

Concordo com todos os teus motivos racionais.. 'qual a razão para torcer por caras que estão ganhando rios de dinheiro pra correr e chutar a bola?' ou 'que sentido tem enlouquecer com essa política econômica que é o futebol?'
O que talvez tu não entenda -por não sentir- é que, pra quem gosta de futebol, o GREMIO (ou o inter para os colorados) é uma paixão! e paixão a gente não explica ;]

(que fique claro: não concordo com brigas de torcida e banheiros queimados!)

Lucas disse...

hum. só posso concordar, então.

Marcelo disse...

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Jeova Rafah disse...

Tambem nao consigo gostar de futebol!

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