quarta-feira, 22 de julho de 2009

Viagem Acidental

O objetivo era claro:
- Lucas, vai buscar teu irmão no aeroporto, já são quatro horas, e ele desembarca às cinco e meia!
- Já vamos, mãe - disse eu por mim e pela minha querida acompanhante nos programas-de-índio (e namorada nas horas vagas).
Preparamos as poucas coisas a serem levadas por mim: a carteira de motorista. Ela, uma bolsa com objetos inimagináveis, contendo inclusive uma câmera fotográfica. Fomos ao carro, e não demorou para que a tal câmera fosse retirada do conforto do ventre bolsal.

Logo na saída, quis dar uma de sabidão e disse-lhe que iria pela Freeway, "que é infinitamente mais perto". Estava claramente contando vantagem, já que omiti o fato de ter OUVIDO esse dado distancial, e tampouco lhe contei que havia feito o dito caminho na manhã anterior, seguindo meu pai em outro carro. Assumi, pois, a responsabilidade de levá-la comigo até a Freeway, em vez de ir pela Ipiranga, sem sequer saber onde entrar direito, nem para que lado ir. Meu senso de direção sempre foi... como se diz... muito ruim. Mas a despeito de tudo isso, minha fé era grande, e talvez possa ilustrar isso bem com uma das primeiras fotos reais deste blog, logo na saída de casa, em que a carona ia despreocupada, e o motorista, apostando em si.

Lá fomos nós. Pegamos a esquerda do condomínio: caminho muito vasto e rumo ao desconhecido. Como fizera na véspera, não me preocupava muito. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, chegaria até alguma entrada e, após alguns minutinhos na Freeway, chegaria até o pedágio, e de lá seria "um pulo". "Um pulo"? "Um pulo" no espaço, talvez.

E depois de sair da RS-118, tendo certeza de que chegara à Freeway (mas aquela certeza cagada, se é que me entendem), entrei nela à direita: opção sem fundamento algum. E fui em busca do pedágio. Ainda na entrada, lembro de brincar, comemorando muito por estar na Freeway, ao ver uma placa da mesma. E a Paola despreocupada, tirando fotos no retrovisor, dizendo-se inovadora.

O problema é que o pedágio não chegava. E não é assim, "oh, mas que demora!". Eu andava a 120km/h, sendo constantemente xingado pela tal, mas realmente estava longe demais e não achava o dito pedágio. É preciso deixar claro que Viamão fica por volta do Km 78 da Freeway. Estávamos no Km 60, já, e nada acontecia. Dirás: "ora, só 18km e reclama!". Pois é, não reclamara até aí.

Acontece que eu não parei. Não queria acreditar que o pedágio pudesse ser tão longe assim; então comecei a correr. Dirás: "ora, mas 120km/h já era correr!". Pois é, mas passei a CORRER. cheguei aos 140, acabei em 160km/h, num risco de irresponsabilidade que me fez prestar mais atenção na estrada do que na própria respiração. E andamos por muito, mas muito mais tempo, e nada. Comecei a desconfiar de que estava errada a direção. Olhei para a quilometragem, únicas placas daquela maldita rodovia. Km 40 indicava que eu estava muito mais distante do meu destino do que eu pensava. Era hora de parar. Sob risos da Paola, paramos perto do primeiro SOS que vimos após tal quilômetro, idéia dela, já que jamais me questionara para quê serviria aquelas caixas azuis no meio da estrada. Infelizmente, concordamos depois, ela não tirou foto disso.



Nos dizeres do meio: Porto Alegre - 71km


Olhei bem para a caixa, que continha apenas uma placa metálica com um botão e uns riscos de onde saía o som. Senti-me uma criança decidindo se apertava ou não aquele maldito botão. Apertei antes de preparar o que ia falar.

- Serviço de Ajuda à Rodovia, boa tarde?
- Boa tarde.
- O senhor precisa falar mais alto, senhor.
- Boa tarde!
- Senhor, não podemos te ouvir. - nisso, literalmente colei meu rosto naquela placa gelada e gritei:
- BOA TARDE! EU VIM DE VIAMÃO, ESTOU NO MOMENTO NO KM 39, QUERO IR ATÉ O AEROPORTO, COMO FAÇO?
- O senhor está perdido? - típica pergunta-sacanagem. Era evidente que eu estava perdido - para não dizer fudido - e se eu não estivesse, não ligaria :(
- SIM, EU VIM DE VIAMÃO... COMO FAÇO PRA IR AO AEROPORTO?
- Meu senhor, o aeroporto é no KM 98.



(Foi então que olhei para ele bem assim -> )


DRAMÁTICO, Esquilo.
Ator internacional
- E o senhor está na direção errada.
- (caralho...) E COMO EU FAÇO PRA RETORNAR?
- O senhor tem que pegar o retorno no Km 25.
- MUITO OBRIGADO. - saí correndo, completamente envergonhado e com o orgulho, anteriormente descrito, totalmente destruído.

Entrei no carro e quase me neguei a contar. Dei a partida e... contei, porque sou um guri, e ela, uma guria. Eis que, alguns minutos depois, no Km 33, tirou uma foto, afim de comprovar a maldita jornada acidental.

Gente, eu queria ir ao aeroporto, Zona Norte de Porto Alegre. Fui parar na Zona Norte do Estado. Próximo, muito próximo das praias, do litoral. E tudo isso por conta de um orgulho masculino frágil e errante, que me custou um possível problema e preocupação: já eram cinco e dez: tinha 20 minutos para VOAR do Km 25 até o Km 98 sem ter de ouvir as mesmas coisas de sempre, e de toda a família. "- Apertem os cintos", disse para ela e para mim mesmo, velho
costume meu. Lá fomos nós, a 160km/h. Façam as contas. Com alguns deslizes no meio do caminho, como a polícia rodoviária atacando um outro carro (o que me fez gelar até o último dos seis dedos que tenho nos pés) (ok, é mentira a parte dos dedos) (digo, dos SEIS dedos), mas por volta de meia hora conseguimos chegar ao Km 98, quando minha mãe ligou.







Nos dizeres: Sto. Antônio,
Taquara, Gramado.




Eu, guri de apartamento, não sei mentir. Ela, fêmea, o faz com destreza. É por isso que atendeu o telefone, enquanto eu murmurava comigo mesmo: "tá, vamos falar a verd..."

- Oi, Teka! Sim, já estamos chegando! Isso! (risadinhas) Ta bom... beijo, tchau!
- Como tu diz que já tamos chegando? Recém entramos na parada!
- Ah, já tamos chegando, queria que eu dissesse o quê? (corrija-me se inventar).

Pela graça do destino, acertei de primeira todos os caminhos seguintes, incluindo a lomba grande e curva, parte que mais me amedrontou em toda a viagem. Chegamos 10 ou 15 minutos atrasados, e ainda tive de discutir com ela sobre subir ou não subir a lomba do embarque. Ganhei, já que estava dirigindo. Entrei então em um caminho que julgava o correto, mas para a minha surpresa, só havia carros iguais ali.

Outrossim, fora aí que ouvira batidas estrondosas no vidro do carro.

- LUCAS! AQUI É SÓ PRA TÁXI! - gritava meu irmão, pouco antes de entrar no carro.




Ao lado, provas concretas da crueldade gratuita feminina, coberta de incompreensão
e de sadismo, típicos da espécie.

7 comentários:

Diogo disse...

Cara, eu previ esse final quando comecei a ler a história.
A leitura me proporcionou prazer orgásmico. Quase resolvi esse problema na minha vida: comprei um GPS. Mas às vezes ele me sacaneia. Teve um dia que tava em POA e, pra voltar pra Viamão, passei por Alvorada (com o GPS).
Beijinhos.

Sergio Trentini disse...

Lucas, aqui é só pra taxi. A leitura me proporcionou prazer, muito prazeroso. Sim, fiz isso de propósito. Não sou estúpido... posso até ser, mas nunca estacionei o carro onde era só pra taxi (esquece que não tem carteira ainda). Cara, duas coisas que não me canso de dizer: GENIAL e amo teu


Beijo na testa.

Marcos disse...

Gastou quanto de gasolina nisso ? Huauhhahah

Lucas disse...

cara, MEIO TANQUE.

Marcelo disse...

eu tinha certeza de que isso iria acontecer quando eu comecei a ler :P

Diane disse...

por favor, me lembre de que eu decidi nunca pegar carona contigo mesmo que eu esteja TOTALMENTE precisando. :P


leitura prazerosa :D

beijo

Paola disse...

APEOIEPOEAIEAOPEIAPEAOI por queeee eu não tirei a foto no SOS? por quê? :(