quinta-feira, 25 de junho de 2009

China em 20 Minutos

Hoje aconteceram duas coisas MUITO estranhas. Só contarei a primeira, poupando a próxima para caso não haja nada mais interessante na próxima semana (sacaram a jogada de marketing?)

Almoçando no shopping Rua da Praia, após uma overdose chocólatra (devido a uma pizza de chocolate recém degustada) resolvi aproveitar o curto período de barato glicídico dando uma volta pelas vitrines alternativas. E sou muito curioso. Logo, dei de cara com uma loja oriental, em cuja vitrine FLUTUAVA uma torneira dourada, da qual saía água até um recipiente estranho. Eu não me considero parte da elite intelectual do século XXI, mas também não sou nenhum leigo ignorante, eu precisava descobrir como aquela maldita torneira estava flutuando... e passei a observar bem antes de entrar em pânico, ou desistir.

Olhei bem ao redor dela, para ver se nenhum fio transparente a segurava, o velho truque do teatrinho de bonecos; mas não, não tinha fio algum. Perguntei-me se estava ela então colada em algum vidro fino, que eu não pudesse enxergar. Não! Então entrei.

Atendeu-me um chinês velhinho, muito velhinho por sinal, ao lado de seu provável filho, bem mais jovem que eu. Percebe-se o quão velho é um oriental pelo ângulo que seus olhos formam com o rosto em si. No caso, não pude ver seus olhos, tão pequenos eram, e nem tive tempo porque logo me surpreendi com sua fala:
- Olhando?
- Hã? É, eu queria saber como funciona aquela tor...
- O?
- A torneira... da vitrine...
- Saber como funciona?
- É!
- Cano ponta, segura - percebi que o oriental era recém chegado, ou muito conservador, pois mal podia me entender não fosse meus gestos teatrais, que, de longe, certamente provocariam risadas. Não entendi o que ele disse de primeira.
- Ah! Como ela não tá presa? - disse eu dando tapas na outra mão, como se pregasse algo;
- No precisa! Caninho ponta! - então olhei bem para nossa traseira e compreendi tudo. Sorri muito simpaticamente, e fingi que ia embora, mas... ah, Deus sabe que não podia deixar essa oportunidade passar. O velho escrevia um bilhete em mandarim.

- O senhor vem daonde?
- Pequim.
- Vieram pra cá há quanto tempo?
- O? - repeti a pergunta. Fez três com as mãos e falou algo, e logo conclui que eram anos. Estava certo. Ele baixou a cabeça e continuou escrevendo aqueles símbolos incríveis, que para mim não faziam o menor sentido. Eu, ainda sob efeitos da glicose, insisti.
- O senhor tá escrevendo em mandarim?

O velho olhou para mim e não respondeu. Continuou escrevendo. Meu superego me denunciou: era hora de ir embora, mas poxa vida, eu não podia esconder minha admiração, ele era estrangeiro, escrevia em mandarim, isso era surreal! E quando me dei conta de que passara muito tempo parado olhando para sua escrita (totalmente dentro da loja), me pronunciei com uma semi-verdade, mas que na hora era completamente verídica:
- Desculpa, é que eu me interesso muito pela cultura de vocês...
E conforme o velho não me respondera, ia-me virando quando o jovem chinesinho percebera meu interesse e resolvera me atender:
- Tudo bem, pai não entende muito português...
- Ah, tu fala português?
- Mais ou menos... - disse ele completamente fluente, sem qualquer sotaque.
- Não, tu fala muito bem!
- Obrigado, aprendeu na escola. - Era do que eu precisava para me curar da overdose de chocolate. Um bate-papo chinês. Eu ia lhes dizer que o jovem parecia muito com este da foto, mas... acho desnecessário, se é que me entendem.
- Vocês tão aqui há quanto tempo?
- Há uns três anos.
- Só? E tu já fala fluentemente!
- Não tão bem. - duvidei, logo que percebi sua completa modéstia. O telefone tocou, e ele atendeu em mandarim. Quase tive um orgasmo cultural. Logo desligou e falou algo em chinês pro pai, e eu consegui entender uma palavra portuguesa solta no meio: "restaurante". O velho respondeu e em breve sairia de lá, nos deixando conversar. Eu perguntei muitas coisas.
- Tu sabe escrever em mandarim também?
- Sim, eu nasci aqui, mas com três anos fui pra China, estudei lá até os onze anos e voltei pra cá.
- Tu tem quantos anos agora?
- Quatorze.
- E foi muito difícil aprender a escrita lá?
- É que aqui é diferente - disse ele erroneamente - aqui aprende outras coisas sobre linguagem, lá aprende sempre a escrever, são muitas palavras, mais de... - perguntou pro pai, que se preparava para sair, em mandarim, provavalmente quantos símbolos têm, e ele o respondeu. Então continuou sua conversa comigo - são uns 40 mil, mas sabendo 3 mil já dá pra ler jornal, escrever normal. - o pai dele então saiu da loja.
- E como tu decorou tudo isso?
- Acaba aprendendo; falar eu entendo tudo, mas escrever nem tudo.
- Cada letra representa uma palavra?
- Mais ou menos, é que é complicado de explicar, sabe - e começou a dar exemplos REALMENTE complicados, os quais ouvi atentamente mas não posso repeti-los aqui pois já foram pro brejo.
- Às vezes tu não tá lendo alguma coisa e não consegue entender a palavra?
- Ah, sim, é que não é que nem aqui, porque se lê uma palavra que nunca viu mas consegue falar, B + A = BA, mas às vezes lê em mandarim e olha uma palavra e se pergunta "o que que é isso?!", e não sabe nem pronunciar! Tem que olhar dicionário, então entende.
Alguém o trouxe comida, e eu fingi não perceber, porque seria crueldade manter o papo contra a fome do rapaz, que aliás, era muito mais inteligente do que eu pensava.
- E tu não teve dificuldade pra aprender a escrita em português?
- É difícil, ainda, mas já tô aqui há três anos, né, já sei alguma coisa.
- Certo - mudei de assunto, tantas perguntas surgiam na minha mente - como era as coisas lá na China? Não tem vontade de voltar?
- Não... - fez uma cara de inconformado - aqui é melhor, sabe, lá é diferente, muita gente...
- Tu é filho único? - me ocorrera o controle de natalidade quando ele falou "muita gente".
- Não, tenho um irmão...
- E como funciona isso? O governo lá não é rigoroso com mais de um filho?
- Por isso que nasci no Brasil - riu simpático - mas não é mais assim, antigo é (sim, falou assim mesmo), China antes dois filhos o rei não queria. - no auge da minha ignorância, entendi que ele quis diferenciar "governo" do antigo regime ditatorial socialista, usando a palavra rei. Perguntei-lhe sobre o preconceito com as meninas nascidas. Foi nessa hora que desceu nele algum espírito oriental, pois não pude entender quase nada; foi mais ou menos assim - sim, isso acontece, não quer filha mulher, só pode um, quer filho homem. Mulher não pode trabalhar, quando mulher nascia amarrava o pé, não podia ser grande, tinha que trabalhar em casa - e se interrompeu - ah, não, trabalhar não, ajudar marido, ah, entendeu. - fingi que entendi. Perguntei se isso ainda acontecia, porque raramente ele conjugava um verbo no passado, e ele disse que não, que isso era antes. Voltei a perguntar se não se pagava multa pelo próximo filho ao menos, e ele disse: - não, o governo nem tá, hoje. Eu fico imaginando... e se nascer gê... como diz? Gêm... - e eu interrompi "Gêmeos" - isso, isso, como vai fazer? Deixar outro na barriga? - e riu. Ri também; foi um belo argumento. Vi a comida dele esfriando, mesmo ele a tendo afastado educadamente, e percebi que era hora de partir.
- Eu to te atrapalhando, tu deve estar querendo comer, né.
- Não, não, que isso - disse ele sorrindo envergonhado. Percebi nessa hora quão humilde e inteligente era o jovem, e depois concluí comigo: alguém que aos 14 anos domina na fala e na escrita dois idiomas sem QUALQUER ORIGEM comum só pode ser inteligente. No mínimo, aprendeu a ser inteligente, tantas foram suas comparações, análises, leituras, memória...
- As pessoas lá na China, como são?
- São bem diferentes, não são como aqui, sabe, elas não conversam muito...
- São mais frias? - soltei essa sem querer.
- Não, se conhecem faz tempo, conversam bem, mas se não conhecem não conversam - percebi que ele também estava surpreso por um estranho lhe indagar tantas coisas, o que não ocorreria lá na China. Mas certamente falar de sua pátria era um assunto que lhe interessava, pois seus olhos pequenos e apertados brilhavam o pouco que podiam enquanto lembrava da terra natal.
- Certo, tu tem acesso à internet? - ele não entendeu, e repeti, então ele entendeu melhor do que eu poderia perceber.
- Orkut? Msn?
- Sim! Tu tem orkut?
- Tenho sim - e já foi rasgando um pedaço do bilhete do pai, o que quase me fez gritar para que parasse, mas entendi que para eles não era nada de brilhante, como não é menos para nós um recado de telefone. Pedi que me adicionasse, e anotei no papel que me dera o meu orkut e o meu msn, o que o fez interromper-me:
- Ah, é Lucas também?
- Sim! Tu também? - disse eu surpreso. Lembrara que nascera no Brasil.
- Sou. - então eu saquei minha mão e cumprimentei-o, dizendo "prazer Lucas". Só então que percebi o motivo de sua inteligência (brincadeirinha do autor).
- Uma última pergunta para te deixar comer em paz: por que vocês vieram para o Brasil? Tava ruim lá?
- Não, não! Foi, como posso dizer, pelo clima, temperatura - e logo se contradisse - não, temperatura não, até porque eu gosto de mais frio, mas foi por causa... - não conseguiu expressar sua ideia. Certamente era alguma palavra especial em mandarim sem representante próximo.
- A natureza...
- Isso, a natureza... como pode dizer, aqui tem amaz... (e eu disse Amazônia) isso, Amazônia, e lá não.

Certamente ele não quis dizer o real motivo, tampouco fiquei eu perguntando, mas sua resposta fora totalmente aceitável. Só que, julgo, jamais sequer passara perto da amazônia; do contrário, estava no centro de uma cidade tão movimentada e suja que poderia até ser comparada com Pequim em vários aspectos. Despedi-me, dizendo que ele era muito inteligente, pelo que me agradeceu, e de longe ainda lhe disse:
- E bonito nome! - e ele respondeu "Lucas", então repeti "bonito nome" e ele entendera;
- Ah, sim, sim! - sorrindo. Também sorri de muita felicidade. Essas pequenas coisas me deixam muito interessado, e não sei bem por quê.

Saí do shopping e a primeira coisa que vi fora um índio tocando uma flauta num microfone ao som de uma espécie de Indian Metal. Percebi que a única diferença entre aquele menino e aquele índio era a difícil trajetória que tiveram de percorrer os mais remotos e pré-históricos ancestrais deste último até darem de cara com essa terra completamente misturada. Antes tivessem ficado do lado de lá.

12 comentários:

Marcelo disse...

Acho que foi um dos (se não O) post mais interessantes, muito bom mesmo!

Lucas disse...

Pô cara, valeu :D
bom saber que não sou o único estranho no mundo a gostar de cultura estrangeira.

beijos fortes no meio do nariz.

Patrícia Andréa disse...

Então vc tb curte culturas estrangeiras?=)

Bjus e bom fds!

Sergio Trentini disse...

"Então vc tb curte culturas estrangeiras?=)"

Ela leu hein.

Muito bom, sem muito humor, alguma sagacidade e muito, disse muito: anarquismo.

Lucas disse...

claro que leu. A primeira frase. aushdua mas to acostumado com a política "comenta no meu que eu finjo no teu", só não acontece entre mim e ti, creio

Marcos disse...

Teus textos são bons de ler , a leitura flui bem.Continua assim cara.

Andrea disse...

Sempre muito bom ler teus textos, quando vejo acabou, leitura sempre interessante e descontraida (adorei o "barato glicídico" acho que tenho um destes todos os dias!) beijos

Diogo disse...

Lido e comentado. Atualiza logo.

Gabriel disse...

no fim das contas, não comprou a torneira...

R. disse...

Que textículo delicioso.

Tem uma porrada de asiático lá na Letras. Tu ia te fartar. (: (:

R. disse...

cadê meu comentário?
é moderado?
se for apaga isso.

se não todo mundo vai ficar sabendo que eu te como na charrete do pai.

vida livre !!!!!!! disse...

adorei, trabalhei com chinês 10 anos, agora estou estudando mandarim, como amo a cultra oriental, sinto que em outras vidas eu era oriental,