quarta-feira, 17 de junho de 2009

O Alface da Horta


Há alguns meses minha mãe plantou uma pequena horta e nela alguns alfaces. Eu, ressuscitando meus instintos infantis, não avisei nada e plantei alguns feijões. Alguns muitos feijões, mas isso faz tempo; lembro de, algumas três semanas após, vê-los enormes, todos, pela segunda vez desde os grãos plantados: num saco de lixo preto. Sim, a empregada (sob ordens maternas e uma vontade assassina) arrancou-os, alegando estarem prejudicando as alfaces. Jurei em voz alta, para ela e para minha mãe, que jamais comeria aqueles alfaces. O que foi fácil, já que não sou muito verdinho, sacam? Não satisfeito, praguejei-os em alto tom, torcendo para que uma manada de gafanhotos pulverizasse a horta toda. Fodam-se, esses alfaces!

E foi assim que peguei nojo dos alfaces da horta. Mas não feche ainda a janela, Marcelo, Jonas, Sergio, Diogo, Lola ou quem quer que seja, pois se este post não vos está parecendo útil, ao menos terá um final interessante. Eu mesmo pensaria "mas que safado, que regresso, que declínio faraônico este menino sofreu!". Ah, seus ignorantões! Seus ingratos! Eu fiz meu trabalho, o de escrever; e o de vocês é apenas o de ler: então apenas leiam! Não gostaram? Pago-vos com um piparote. (Não, isso não é familiar. Fecha esse livro, vai).

Frescuras à parte, eu não queria confessar em público, mas estas são minhas memórias eletrônicas (e tão poucos as leem) então me pergunto: por que não contar sobre minha terrível e crescente indisposição intestinal? É algo terrível por que tenho passado, e não vejo solução senão apelar para alguma mandinga anciã, e assim o fiz. As pessoas de meu conhecimento receitaram um remédio, algumas frutas e principalmente um acréscimo em minha alimentação: a alface.

Puderam já os mais atentos perceber que não me decidi até o presente momento se o correto é A alface ou O alface, e tampouco me interessa, pois sou um barroquinho, e adoro esses contrastes do sol com a lua, da luz com a escuridão e, por que não, do A com o O.

Ok, talvez não tenha lá o final mais interessante do mundo, mas poxa, vocês são meus amigos.

SIM! Eu tive de começar a comer aquela montanha sem gosto, irmã da grama e tia do pimentão. Que desgraça! Mas tudo bem, já não é segredo que, por vergonha na hora de decidir o que tirar de dentro dos XIS, acabo deixando a alface. Ela não tem gosto, mesmo. E me perguntam como posso não gostar de alface, se não tem gosto. Pensem bem na resposta que formula em meu cérebro canibal.

O problema não era comer o alface; o problema era quebrar a promessa. Eu teria de comprar alfaces, o que é muito mais vergonhoso. Pensei que isso tudo era bobagem, aqueles dogmas que sempre tive na infância e que ainda me parecem verdades incontestáveis, e portanto fui me convencendo de que o melhor a fazer era comer aquele maldito pasto de água. E, considerando que me considero consideravelmente maduro, considerei que ninguém consideraria isso um escândalo, afinal, faz tanto tempo que fazia gestos de vômito para verduras em plena mesa...

- Como assim, alface? - disse a Cleci, quando pedi para acrescentar no meu prato requentado (chego tarde).
- Alface, eu queria misturar no feijão e na carne. - não expliquei por quê.
- Ah, não acredito, aleluia! Tu comendo alface?
- Tá, Cleci, só põe pra mim - disse eu, sorrindo no final por ter parecido grosseiro demais. Ela não percebeu nenhuma alteração, nem a grosseria, nem a tentativa de amenizar. Ela é assim mesmo.
- Vou colher, antes que tu mude de ideia - e saiu gargalhando. Na rua, pedreiros reformando a casa. O pesadelo começou. - O Lu tá comendo alface, hahaha! - fiquei roxo. Não sei bem se era raiva, ódio, nojo ou... tá, era vergonha. Ela voltou, lavou-as e colocou-as na melhor tigela da casa, para que eu as apreciasse com 1% a mais de vigor. Tá bem. Misturei a samambaia no feijão e engoli concentrado, mas ao olhar para o lado, para meu desgosto, contemplei uma das cenas que mais me enfurecem na vida: alguém me olhando comer. Alguém que não come, digo, e de pé, ou seja, está sentindo prazer ou desprazer em me ver comer. Há um tempo que alguns traumas familiares fizeram-me assumir uma postura totalmente canina, ou selvagem, como preferirem, que é a de preferir comer sozinho, num canto, sem pessoas olhando ou pensando por perto. A menos que seja alguém de que goste muito (e que ainda assim esteja fazendo o mesmo que eu), sinto-me completamente intimidado, atiçado, e por que não ameaçado; é como se a pessoa quisesse cada amido daquele arroz, cada gota daquele caldo de feijão, argh, isso me enoja, Cleci! Mas ela é um caso à parte.

Digo isso porque não só me olha diariamente, como escolhe a minha curta hora de almoço para conversar comigo. E senta do lado, ou fica de pé em frente ao meu prato, conversando, falando, gargalhando, quem sabe até se cuspindo, e sempre que percebe a minha desatenção proposital me cutuca, chegando já a me sacodir mesmo. Constantemente chamo-lhe a atenção, mas não adianta, pois ela ignora ou esquece logo. Uma vez esperou-me para comer (o que virou constante, e me fez chegar mais tarde de propósito sempre que posso), e quando foi rir de alguma bobagem qualquer, observei a parábola que um grão de arroz de sua boca percorreu até bem perto de meu prato. Parei de comer na hora. Em vão.

Mas nesse dia, ontem, aliás, ela estava me contemplando por estar eu comendo alface. E falava o tempo todo. "Nunca te vi comendo alface, tu comia já?" e eu murmurava algo, e ela perguntava "oi?" e eu me forçava a responder "Só em xis". Merda. Eu só queria comer rápido e em paz, Cleci! E ela continuou até chegar a Rose. Rose é a sua ajudante, já que Cleci anda meio mal das costas há várias décadas. Rose é quieta como um pé de alface (e eu não gosto de alface), e é Cleci quem sempre a faz murmurar as 10 palavras do dia.
- Rose, tem que ver esse guri comendo alface! É igualzinho a mim: sem tempero, sem vinagre, sem sal, sem nada! E antes reclamava!
- Ah, é? Tu vê...
- É, pra quem não gostava até que tá se alimentando bem hein? (gargalhadas galhofentas).

Fiquei realmente bravo. Mas me pareceu óbvio que, se eu saísse no momento, seria pior para mim. É preciso muitas vezes subjugar-se a esses testes de resistência, pois a vida não é tão simples assim e vai saber quando vou estar no meio de uma guerra mundial, hãn? Comi quieto e saí de lá, sem contar-lhe sobre o verdadeiro e triste motivo de eu estar ruminando aquela concha mongol.

Hoje, porém, fui eu mesmo colher o alface e lavá-lo, colocar direto no prato para que os comentários amenizassem. E aí, adiantou? Ah, não.
- De novo! Mas tu gostou mesmo desses alface hein?
- Hum.
- Sabe o que é bom neles? - e não respondeu, esperando minha interação. Vi-me obrigado a responder.
- O quê?
- É que não têm agrotóxicos!
- Ãhn... - levantei-me e fui ao banheiro, esperando que ela não estivesse mais lá quando eu voltasse. Um pedreiro passou por mim e se satisfez: "e aí, comendo alface, então?". Não tentei sorrir praquele filho da puta, mas compreendi-o de imediato. Demorei para que Cleci tivesse tempo de sair da cozinha; achei mesmo que não estivesse mais lá. Mero engano. Inclusive, esteve mexendo na mesa. Fiquei preocupado com a possibilidade de sua memória curta ter surtado de novo e ela ter temperado aquilo com vinagre. Fui até o prato e cheirei as folhas por cima. Pensando bem, é A alface, mesmo. Ela me viu cheirando-as e comentou, é claro.
- Não é bom o cheiro de alface sem agrotóxico?
Me perguntei sinceramente se ela pensara realmente no que falara. Cheiro? Aquela coisa não tinha nem gosto, e eu só acredito que existe porque é verde! Como pode ter cheiro? Além do mais, me perdoem os roceiros, mas não acredito que agrotóxico tenha odor! Ah, Cleci! Tenha dó!
- É bom o alface da mamãe, né? - continuou Cleci. Agradeci por minha mãe estar longe, pois certamente iria rir quando visse minha promessa descumprida. A despeito disso, não consegui me conter de raiva.
- Cleci, pelo amor de Deus, é só uma porcaria de alface! Parece que eu tô comendo um ET! Por que tu faz tanto caso por eu comer alface?! - e a voz foi subindo - Assim eu vou parar de comer essa merda, daqui a pouco!
Ela parou totalmente ofendida. Assustei-me; dificilmente ela considera uma crítica! Será que funcionou, mesmo? Mas não era tempo de se arrepender, afinal, meu objetivo fora cumprido: ela não ia mais me encher com os alfaces. Apesar disso, comi muito mais rápido do que o de costume e ia saindo. Ao levantar, encontro minha mãe subindo a escada. Certifiquei-me que não havia sinais de alface no meu prato. Comi o último pedacinho sem sabor. Após, cumprimentamo-nos, e julguei que podia sair então. Não antes, é claro, de uma última pérola doméstica, saída quase que aos sussurros:

- Teka, faz dois dias que ele tá comendo alface...

12 comentários:

Diane disse...

orgulho da mamãe ^^

ahuahuahuauhau

Marcos disse...

Ficou melhor da indisposição instestinal comendo alface?

PS : ri alto da parte do pedreiro.
ok , nao foi alto , mas ri.

Marcelo disse...

a cleci gosta tanto de comenta que se soubesse que tu tinha um blog, era capaz dela aprende a usar o pc so pra comenta os teus posts aqui...

Lucas disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lucas disse...

Na verdade é um pouco mais complexo do que relatei ali, mas estou melhorando, obrigado!

(Deus me livre, Cleci lendo isso, vai cuspir no meu feijão e cancelar os bolos de chocolate hahaha)

Sergio Trentini disse...

Ri alto em várias partes. Normalmente eu só fico falando "genial, genial". Muito bom, luke. beijoca

Gabriel disse...

odeio que me vejam comendo. odeio.

Gabriel disse...

odeio que me vejam comendo. odeio.

Lucas disse...

DE NOVO, DE NOVO!

Sergio Trentini disse...

ele odeia que vejam ele comendo.

Marcelo disse...

pq almoça no RU 300?

Andrea disse...

Tô rindo até agora, só de imaginar a cena da Cleci!Muito bom!