terça-feira, 9 de junho de 2009

O McEscravo

É o seguinte: Se alguém aí é nojentinho(a), fresquinho(a) ou ainda não almoçou, nem comece a ler, entendido? Como sei que meus 3,3 leitores não se enquadram nesse perfil (ou se enquadram mas gostam tanto de mim que não darão bola), não me preocupo em relatar veridicamente uma rápida passagem do meu dia de HOJE.

Primeiramente, peço perdão (se esta palavra lhes cabe) pela inconstância nas postagens. Há dois fatores que culminaram concomitantemente na minha demora: a consciência pesada e os estudos pesados. Quando um ocorre, inibe os efeitos do outro, e deixo-vos às vossas reflexões enquanto inicio a aventura lucassiana de hoje.

Deus que me perdoe, se ele quiser, mas há muito tempo que venho pensando em um post para este brilhante título (se a modéstia me for faltante) e nunca achei nada à altura: quando criei o Tenha Muito Cuidado, a primeira ideia era justamente descer o cacete no Mc Donalds, até porque havia ocorrido um outro fato àquela época tão desagradável quanto este, mas que não pretendo vos contar.

O que acontece é que eu vivo numa relação de amor e ódio com... bem, com esse Nome. Não digo com a empresa e nem com o produto, justamente porque apenas amo o produto, mas ODEIO MUITO TUDO ISSO. O Mc Cheddar é, literalmente falando, uma iguaria perfeita nas mãos sujas de uma Multinacional sanguinária e incompetente! Minhoquenta! Ignorantona! AAAAH, CANALHA!

O McDonald's é o boteco mais famoso do mundo. E sabe tão bem disso, que se aproveita - e abusa de seu poder sob os países recém-ianquezados. Aumenta o preço uma vez por mês (oscilou R$ 5,00 nesses últimos dois anos; sei disso porque experimentei o primeiro McCheddar há dois anos). Arrependo-me da primeira borrifada de gordura amarela que ingeri, mas foi o bastante para que eu viciasse perante aquele pão gosmento, aquele bife seco e desidratado e, principalmente, aquele amontoado de cebola crua e amarronzada. AI! E sabedor disso tudo, senti-me diante daqueles impulsos pré-óbito que tanto me aflingem, e concluí que poderia ser a última alegria de minha vida comer aquele sanduíche de minhoca (não me corrijam). E fui.

Entrei lá e a fila era quilométrica. Havia uma McEscrava limpando o chão, em que alguém já derramara R$11,25 em mercadoria e saíra infeliz e arrependido. Cada batatinha daquelas custava ouro, e não me admira o dia em que os pedintes vão-se esmolar por McDonalds. O que aliás já aconteceu uma vez comigo: um menino de rua veio me pedir dinheiro na fila desse lugar para "comprar um lanche", palavras dele. Eu não pude acreditar. "Meu, por que tu não procura um lugar mais barato pra comer?", mas ele não respondeu. Senti-me um crápula americanizado. Mas fui sincero, fazer o quê? Hoje, no entanto, só havia a fila e a sujeira no chão.

Uma outra McBoba veio me indagar sobre meu pedido, e eu lho disse, mas ela não anotou nada. É, ela me ignorou, sim, me ignorou e foi tratar de assuntos pessoais com um McAmigo. Esperei atentamente minha vez na fila interminável de pagamento-e-retirada (eram duas em uma). Enquanto isso, um espaço vazio me chamara atenção num dos cantos do balcão. Perguntei àquela segunda McBobinha por que não havia ninguém naquela fila, e ela me respondeu sem vontade: "é pra cartão". Preferi calar-me, era cedo.

Chegara minha vez. Portava um casaco enorme, um guarda-chuva, uma mochila pesada e um pacote frágil nas mãos, ou seja, não posso dizer que estivesse confortável. Pois bem, chegou minha vez e já estava com o dinheiro na mão. É exatamente o preço líquido da minha passagem de ida+volta, que, por suas vezes, custam o dobro de passagens de ida+volta de qualquer outra pessoa normal e feliz. Segurei, além de meus apetrechos, e ergui a nota até próximo da McInfeliz, mas ela preferira conversar com a Mc'Oitada do lado (legal esse último, né?), falando algo sobre Confete, ao que esta a corrigiu: "confete, ou confeito?" e gargalharam, no melhor espirito obesoamericano, e a minha atendente retrucara: "Meus sobrinho falam Confete, então eu falo confete mesmo, não tô nem aí" e meu sangue já passava dos 100ºC em cada artéria do meu corpo, e algo escapou ao meu superego: "Tá bom, 'Confete', posso fazer meu pedido?" e ela: "Só um pouquinho". Ficou parada fingindo se ocupar com dinheiro, ou papel, não sei, mas com certeza nada importante, somente mais uma forma de se vingar de um McPalhaço rebelde. Depois fiz o pedido.

- Número 4.
- Cheddar? - quase respondi "não, eu quero que tu faça um número 4 com os pés, pode ser?", mas ainda era cedo.
- Sim, Cheddar.
- Bebida? - eu quis responder "não, prefiro em sanduíche mesmo", mas talvez ela e vocês não entendessem, e era cedo.
- Coca.
- Coca? - fiz que sim com a cabeça e respondi "coca" bem baixinho. Acho que não foi suficiente para a McFilhaDaPuta, que fez um "hãn?" forçado, aproximando o ouvido da minha boca seca de raiva. Se fosse limpa, morderia a sua orelha como sinal de indignação.
- SIM, Coca-Cola!
- Ok, pode esperar ali na fila do lado. - ela quis dizer "dê meio passo ao lado". E foi o que fiz.

Subi com dificuldade, pedindo licença como último sinal de educação. Cheguei fatigado ao segundo andar, que estava lotado. Rezei para que o terceiro não estivesse. Enquanto subia, uma mulher descia, o que me deixou feliz, já que ela não trajava as magníficas roupas do Ronald. Que alias, cairiam muito bem nos McEscravos. Casualmente, o lugar de onde ela saíra era o pior. Mas não esperava mais, mesmo. Botei todos os apetrechos na cadeira única e sentei-me, colocando a bandeja naquele plástico amarelo e laranja. O som do momento era da Rádio McDonalds. Perguntei-me o que levou alguém a criar esta rádio, mas entre os intervalos das músicas não mais tive dúvidas. Mensagens subliminares nem um pouco sutis perfuravam meu ouvido, fazendo-me acalmar e saborear o momento como se fosse, de fato, bom. Ah, safados! Ah, ignorantões!

Quando comecei a saborear o doce pão-com-graxa, senti o primeiro prazer desde que entrei naquele ambiente brasileiro. Digo isso porque aquilo é muito brasileiro. Senti o sabor do fast-food americano, bebendo uma bebida americana, o cheiro e a bandeja americana, o humor infanto-americano num folheto que a forrava, guardanapos, canudo e copo americanos, mas quando olhei ao meu redor... brasileiros. Raças, cores, cheiros, formas, classes sociais: eram McBrasileiros! Todos! Inclusive eu!

Comecei a sentir um nojo inexplicável. Maldito produto corrupto, americanizado. Por que não mereci ser bem tratado quando optei por enfiar essa torrada pastosa no meu estômago? Por que tenho certeza que, na terrinha de origem, todos são muito bem tratados e gozam dos prazeres daquele ambiente, do cheiro, de tudo? Só porque não sou obeso, tampouco rico? Porque vivo entre subdesenvolvidos americanizados, é isso, senhor Ronald? É isso, seu palhaço capitalista?

Enfim, quando conclui aquela McMerda, mesmo saboreando-a, estava possesso. E, se há alguém que me conheça melhor que eu mesmo, saberia que isso pode ser ruim, seja para quem for, mas principalmente para mim mesmo. Era hora de agir com mais um Protesto Silencioso: o McProtesto.

Eu ando numas ondas de Protesto Silencioso, invenção minha, creio, mas nem sei quando nem como essa cadeia auto-terrorista teve seu início. Lembro-me dos poemas em agradecimento aos banheiros, que constantemente registrava em suas próprias paredes, mas isso acabou quando percebi quão volúveis eram meus longos poeminhas a lápis.

E por falar nisso, desci ao segundo andar, único banheiro do prédio. Não ia fazer um McPoemaFeliz, não, queria protestar silenciosamente, algo que só eu e Ronald, o palhaço onisciente, soubéssemos. Encontrei um sujeito que conhecia de vista próximo ao banheiro, e percebi o quanto ele se aproximada do McPerfil. Não o cumprimentaria em outra instância, mas agora vinha a McCalhar.
- E aí, meu guri! Pô, já que te conheço vou deixar minhas coisas aqui contigo enquanto vou ali no banheiro...
- Tá ok, pode deixar - disse aquele rosto gordo, enquanto ruminava um McBoludo inteiro.

Fui até o banheiro. Não havia ninguém. Dei descarga pois alguém havia urinado em uma das patentes, e...

(o que vocês acham que eu fiz?)

...e provoquei um indignado McVômito. Vomitei tudo que pude, até a coca-cola, cada batata e cada torrão de sal. Ora, se estás arrependido de ter chegado a esta parte, saibamos que eu avisei, embora já tivesses te esquecido (e depois sou eu que sou esquecido). Meu protesto silencioso estava concluso. Mas um sardento McEscravo me contemplou ao sair do boxe e ir para a torneira do McMinúsculoBanheiro.

- O senhor tá legal? - e eu pensei em ignorá-lo, ou pedir para que definisse "legal", afinal ele sabia que eu recém tinha regurgitado R$ 11,25.
- Aham, tô. - e tentei sair, mas ele insistiu.
- Se o senhor quiser, a gente tem um remédio pra estômago ali dentro - disse sem apontar para onde, e já imaginei que o remédio fosse um enorme BigMac escorrendo uma pasta de gordura de porco frito.
- Não, não, tô bem, cara. Valeu. - tentei sair de lá, mas quando me aproximei da McPorta...
- Foi o sanduíche? - de fato, foi. Mas não como ele pensara. Foi o estopim: já estava tarde.
- Não, não é o sanduíche, é quem prepara ele. - pensei em continuar, mas, poxa vida, era só um McEscravo e era o PRIMEIRO que havia se preocupado comigo. Pobre sardento. Saí enquanto ele ria assustado, quase que concordando.

Agradeci ao gordo semi-conhecido e fui embora, bem mais aliviado do que quando entrei. Ao atravessar a rua, contemplei um M amarelo e arredondado; foi quando me perguntei por que Ronald não é obeso.

10 comentários:

Paola disse...

é "Cheddar McMelt", e ninguém mandou comer tudo que eu como, agora tá viciado :x

"pacote frágil nas mãos"? o que? o que? 8)

vou pedir pra alguém andar contigo durante o dia pra te vigiar, McLucas.

beijo, gnomo verde!

Lucas disse...

Acho que o post ficou grande demais para lerem.

Anônimo disse...

use palavras simples. :( e pare de vomitar.

Paola disse...

nao fui eu e se ficar mais simples até um analfabeto vai poder ler o.o concordo com a parte do pare de vomitar.

Lucas disse...

Foi o sérgio, e ele se referiu ao "concomitantemente" asdhuakdahds safadjenho mesmo

Paola disse...

aaaah, nesse caso ele tem razão :P

Rodolfo Soares disse...

Nossa... o pior que acontece em todo lugar!!! O texto é longo mas é bom hehehe
Também vivo nessa de Amor e Odio com o M.C. Donáldes ;D

Abraços
Rodolfo
www.borarir.net
To seguindo também, siga lá o nosso ;D!

Diane disse...

ahh, até você é adepto das "modinhas" capitalistas. Mc já foi mais instigante para mim.

ótimo texto, mas eu não queria saber que tu vomitou. isso não faz, guri! :P

beijo

Humor Nota Zero!!! disse...

aaaaaaaaauehuaehueaheaeuaheau
pqp
eu ri :x
mas fazer oq, é assim msm, é o brasil aonde td mundo é educado, mas nao coma mais la..

Patrícia Andréa disse...

"ótimo texto, mas eu não queria saber que tu vomitou." [2]
McDonalds: ame-o ou deixe-o!
Bjus!