quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Estranhos e Estrangeiros

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Ontem passei o dia no SAT (Serviço de Atenção ao Turista) da Usina do Gasômetro, atendendo os turistas loucos que sobreviveram ao sol responsável pelos 45ºC sentidos no centro de Porto Alegre. Ao menos havia ar condicionado no local.

Pela manhã, uma moça de seus 27 anos, também da SMTUR, auxiliou-me, uma vez que eu não tinha absolutamente nada para informar aos turistas. E quando ela saiu, às 12:30h, tampouco sabia algo relevante. Pouco antes, por volta das 11h, entretanto, algo inesperado ocorreu-nos. A porta foi bruscamente aberta por dois senhores, e um pronunciou-se em espanhol: "este señor es germánico y necessita una ayuda", e saiu. O outro, grisalho, aproximou-se do balcão atrás do qual estávamos e se fez claro em bom tom: "Oi", e eu respondi "oi", sem entender direito o que era aquele sujeito. No momento seguinte, apontou para mim e para a moça perguntando "Any of you speak english?" e a guria ficou em estado de choque, pois só compreendia algumas palavras. E quanto a mim, era tudo que eu mais estava esperando. "Yes, I do", disse, e logo ele começou a me tratar como um retardado, falando pausadamente como uma criança bêbada. Agradeci aos céus por ele ter se comportado assim, porque eu não estava pronto para um diálogo "mano-a-mano dos brother". E ele ficou utilizando deste discurso superior germânico até eu perguntar para ele, com meu básico (mas não menos importante) conhecimento de alemão: "Sprechen Sie Deutsch?", e ele me olhou por um segundo, analisando-me como pessoa pela primeira vez desde que pisara naquela sala, e disse: "Ja, sprechen Sie?" e eu, no mais alto estilo viamonense, respondi com convicção: "ich spreche nicht Deutsch sehr gut, aber habe ich eine buch gelesen". Eu havia ensaiado essa frase tantas vezes... mas nunca pensei na possibilidade de ele retrucar: "ja, gut, welches Buch?", e eu fiquei sem o que dizer. Porém, não baixei a guarda: "it's ten german lessons for strangers", e ele passou a me respeitar (não sei bem por quê) e a agir mais educadamente. Isso até ele notar que a moça possuía um bronze típico das mulheres brasileiras - algo que, convenhamos, é bem comum aos nossos olhos. Isso o deixou extremamente perturbado, e mal podia disfarçar sua admiração pela minha colega. Compreensível, tendo na lembrança as velhinhas colonas polentudas com cor de gelo seco que habitam sua terra natal. Perguntei seu nome, e pelo que pude entender era Humbert.

Ele queria andar de barco no gasômetro, e que no barco houvesse água potável. Ao traduzir para a Simone, ela passou a procurar no computador, o que provavelmente indignou nosso amigo ariano, o qual não se conteve: "what is she doing?" e eu disse "she's looking for your boat, sir" e ele acalmou-se, e começou a olhar os folders e os papéis de propaganda que havia nas prateleiras, e os pontos turísticos. Quando ela achou, verificou que o barco mais próximo era dali a três horas, e eu fiquei com vergonha de lhe contar, mas não tive outra escolha. Ele ficou atordoado, mas disse que então perderia um tempo num museu. Eu falei do museu de tecnologia da pucrs, que, é claro, não se compara com Berlim, e após perguntei se ele estava de carro, tendo-me ele respondido: "I prefer the bus". Eu quase o convidei para ir a Viamão, mas deixei ele ter ao menos uma imagem positiva do país. Após, a moça sugeriu algum lugar e eu lhe repassei, sendo que ele fingia adorar as propostas, a despeito de eu saber que ignorara todas. Ela veio até nós, na prateleira, para pegar algum papel que ela insistia em mostrar a todos que entravam, e que até agora eu não sei do que se trata. Ela começou a procurar o papel, de costas para nós, e a cena mais engraçada do dia ocorreu-se: ele começou a olhar FIXAMENTE para a região dorsal da moça, e após estendendo o campo de visão com grande flexibilidade. Só não notara que eu o observava neste momento, e então eu aproveitei essa situação doce e delicada para propor-lhe um momento de timidez: "Denken Sie dass, ist sie ein schönes Mädchen?" (o senhor achou ela bonita?), e ele, meio pegado de surpresa, respondeu-me "ja, ja, Sie ist schön!", e ambos começamos a rir; ele, porque se sentiu um safadinho; eu, porque estava sacaneando ambos ao mesmo tempo, o meu maior hobby, como devem saber meus amigos.

Ele cansou logo e nos deu tchau, sem aceitar mais nenhuma informação.

Em breve a moça foi embora e me deixou sozinho. A partir de então, não consegui dar nenhuma informação, a não ser "onde ficava o cinema mais próximo", para uma paulista seqüelada. Menti para um israelense que havia uma parada de um certo ônibus num local da borges, sem nem mesmo saber do que se tratava. A questão é que não fazia a menor diferença, e eu não saberia procurar, já que nem ele sabia direito o que queria. Ele fedia muito e falava em espanhol, tanto que pensei tratar-se de um argentino. Diz que anda viajando por toda a América do Sul. Torci para que fosse a qualquer outro lugar, pois ele realmente fedia a carniça.

Após, duas suecas entraram: mãe e filha. Acompanhava-as uma senhora portoalegrense, que provavelmente as recebia em casa. Soube da nacionalidade quando esta brasileira me disse "oi, elas são suecas...", e então lembrei-me NA HORA do meu amigo Paulo, e nunca fui tão sorridente para um estrangeiro. A moça fazia intercâmbio, era loira, possante e tão branca quanto um palmito cru; estava no Brasil há 9 meses e falava português com sotaque gauchesco. Até me apavorei. Quando disse à senhora brasileira que eu era novo lá, a guria recessiva deu uma risada. Achei que fosse brincadeira, ignorando, mas logo ela falou comigo tão bem quanto qualquer colona de Novo Hamburgo. Então perdeu-se a graça e comecei a falar com a mãe da sueca, que só sabia inglês. "Are you from Gothenburg?", fazendo alusão à única cidade que conhecia além de Estocolmo; elas se surpreenderam: "no, we're from (e disse a cidade), it's close to Gothenburg. Have you ever been there?" e eu disse que não, nunca havia estado em Gotemburgo. Ela disse então que eu era estudioso. Foi como um soco na barriga, retribuído com um sorriso forçado de minha parte. Perguntei há quanto tempo (em inglês) a moça estava pelo Brasil, e ela começou a falar um inglês tão rápido e fluente que, sinceramente, eu me borrei. Sim, me-borrei! Não há outra forma de dizer isso; suei frio quando aquelas palavras gringas não atingiam meu conhecimento e impediam-se de formar uma frase com sentido. Ela era boa demais para mim. E como eu ia aceitar isso? Pedir para falar mais calmo? Nah. Eu repeti as duas últimas palavras.

"Nine months? Wow! You've learnt portuguese very fast!" E todas concordaram e saíram felizes, satisfeitas e provavelmente considerando-me um expert. Bom, neste mundo de aparências, isso sinceramente já me bastou.

Somente quando elas cruzaram a porta de saída é que me ocorreu: será que não caí no mesmo truque do Palavra da Vida? Preferi acreditar que não, e logo faltou luz. Fui embora meia hora antes, cheio de história para contar.

(Convenhamos, alguém consegue notar a semelhança entre Estocolmo e o gasômetro?)

9 comentários:

Diogo disse...

Engraçado, cara, muito bom. É bom ver um pouco de humor por aqui.

Marcos disse...

"Eu quase o convidei para ir a Viamão, mas deixei ele ter ao menos uma imagem positiva do país."
Muito bom ,auuhausuasuasa .

Marcelo disse...

velinho taradão :P

Maria de Fátima disse...

Olha eu de volta Lucas. Visitar teu Blog é um passeio por esse Planeta de estranhas figuras. Gasômetro e Estocolmo, parecidas? Efeito do calor portoalegrense, úmido, abafado, de fritar ovo no asfalto. Imagina o efeito nos gringos?

Barradas disse...

husahusahuhusahsau
Boa tiradinha com o alemão!

Queria ter presenciado a cena... do ângulo dele. Okay.

Au revoir.

Liliane disse...

Adorei! Fiquei imaginando o Paulo conversando com as suecas no Palavra da Vida. E a cara do Alemão quando falaste com ele em alemão! E quanto as gringas, saiste-te muito bem. Beijos.

Jeferson disse...

que emprego diver :D
troca comigo... talvez um pouco menos emocionante mas com certeza mais divertido! x)

Jonas Kloeckner disse...

Sie ist schön! Demais cara!!! ahsuhasuahs
ME-BORREI de tanto rir aqui! Tirando sarro dos dois ao mesmo tempo, és um gênio do mal rapaz!
Tenho certeza de que está aproveitando bastante este trabalho, fico muito feliz por ti!
Abracitos hermano!

Francine disse...

Da mesma forma que o alemão foi prepotente ao pensar que tu era um retardado quando entrou pra pedir informações, tu foste comigo ao pensar que eu não tinha capacidade de ler todo o teu post. HAHUAHUAHUA :] Mas tá, vou confessar que li tuudo, até o fiim.. pq a história era realmente engraçada e interessante. ;)