segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Aventuras em Mato Fino


Para facilitar a compreensão da história - que se fez longa - dividi-a em algumas partes.


PARTE I - A Busca Fracassada

Domingo, às 14h, meu comparsa Paulo Barradas apareceu à minha casa com uma bolsinha e um bastão. Não é o que parece: era a máquina fotográfica e seu tripé, respectivamente. A idéia havia sido dada havia menos de meia hora atrás, e baseava-se em visitar um velho lugar extremamente rural onde morei há dez anos atrás, um local chamado Mato Fino, ou Morungava, a uma hora e pouco de Porto Alegre, mas a 50 minutos de minha casa. Apesar da proximidade, é o ambiente mais bucólico no qual já estive pisando.

Armados de uma mochilinha com bermuda, toalha e cueca reserva (nunca se sabe), uma garrafa d'água, um binóculos, uma máquina e um facão gaudério de abrir o bucho, chegamos sem muita frescura ao meu antigo sítio, que ainda estava praticamente abandonado, e assim estaria até semana passada, quando alguma alma esperta o comprou e mandou-o reformarem. Lá, encontramos um tio afro-gaudério que nos recebeu muito bem (nos padrões gaudérios, claro), deixando-nos entrar na casa decadente, a qual estava reformando, e então observamos os cômodos, lembrando de como eram há dez anos atrás, o nascimento da germânica Layka, do falecido africano, Nestor, etc. Pedimos licença para estacionar o carro no terreno, pois havíamos deixado a velha camionete (sem espelhos e sem fechaduras) na estrada de terra batida e deserta, a alguns metros dali. Para tanto, perguntei ao velho gaudério até que horas ele ficaria ali, ao passo que pensou um pouco e respondeu com uma exata convicção: "até certa hora". Não rimos; não obstante, fingi ter entendido. "Ah, então tá certo. Vamos dar uma olhada no sítio e depois aparecemos aí", e o pedreiro concordou.

Estacionamos abaixo da antiga amoreira, que hoje é um pedaço de tronco velho e seco. Peguei a mochila, ele a máquina, mas deixamos a água. Fomos andando uns duzentos metros além da casa em reforma e chegamos no local onde havia uma velha casinha na qual morava o antigo caseiro do sítio. Achamos o lar destruído, sem aberturas, com vestígios de incêndio, em estado inabitável e, logo notamos, havia-se formado a verdadeira República dos Marimbondos no seu interior, com verdadeiras Cidades de Ferrões. Saímos logo antes que nos tomassem por invasores - o que de fato éramos.

A idéia inicial era achar uma cachoeira, a qual me lembrava a infância. Sabia que pertencia ao Palavra da Vida, uma instituição pseudo-religiosa que se resume a um acampamento europeizado de verão, com construções maravilhosas, quadras de qualquer esporte possível, catálogo de animais que habitam o local, paisagens naturais incríveis. No entanto, essa instituição era a dois sítios da minha, e eu queria entrar pela mata fechada, para ter mais graça. Após andarmos por muito, muito tempo, achamos uma estrada onde dois ou três guaipecas nos ameaçaram. Procuramos entrar em qualquer mato por volta até encontrarmos vestígio d'água. Quase uma hora de caminhada e apenas nos distanciávamos da casa, até que encontrei, olhando para o distante horizonte, a casa do meu antigo sítio novamente, mas olhando-me de frente, sendo que deveríamos estar indo para o seu lado esquerdo. Quando percebi a cagada, tentei falar o menos disso possível para não desmotivar o amigo Paulo, e resolvemos seguir por uma estrada muito estranha, de pedra velha, sem uma verdadeira razão. Entramos num corredor em depressão formado por árvores e galhos mortos, e logo encontramos uma vaca leiteira, quase explodindo. Não querendo problemas, seguimos por dentro de uma propriedade, e descobrimos que era a dos mesmos guaipecas de antes assim que estes nos ameaçaram novamente, a quase 1km de distância de nós em campo aberto.

Depois de vários metros de caminhada, completamente sedentos por água, ouvimos um barulho corrente, e logo senti o cheiro doce da água e assim o falei. Segundos depois, encontramos uma linda e pequena queda d'água numas pedras, o tal córrego, que certamente estava ligado à preciosa cachoeira. A questão era: para qual lado? A montante, haveríamos de seguir muitos quilômetros até achá-la. A jusante, jamais a encontraríamos. Conhecimento inacessível até então, e, portanto, seguimos o caminho de volta, com mais sede impossível (Paulo não me deixou beber a água do açude pedroso). Ainda num ímpeto de aventureiros, resolvemos avançar em uma bifurcação pelo caminho menos provável, até encontrarmos uma manada de vaca gorda. Elas basicamente nos cercaram, sobrando apenas uma direção para fugir - atrás de nós. Ficamos tensos por uns minutos, já que TODAS nos olhavam desconfiadas, totalmente paradas. Senti-me uma gazela mais uma vez (vide o primeiro post deste blog) perante uma horda de leoas famintas por minha carne suculenta. Uma delas devia ser o touro, porque cansara de ficar nos encarando e começou a avançar lentamente. Eu gritei "CARA, ELA TÁ VINDO ATRÁS DA GENTE!" e começamos a correr. E o touro atrás (experiência única). Por sorte, éramos sortudos.

Antes de voltarmos totalmente, ainda desviamos o caminho em busca de um barulho aquático que ouvimos, e acabamos encontrando um verdadeiro corredor de pedras pelo qual passava a mesma água anterior, mas em bem maior quantidade. Não me contive, quis entrar e convenci o Paulo, que, contrariado, aceitou. Vesti uma bermuda (estávamos de calça), tiramos os tênis, meias e entramos. Assim que descemos da rocha-mor, pela qual a água transparente corria, o solo arenoso aterrou-me até a altura do joelho, fato que me rendeu suspiros de medo. A idéia de seguir o córrego por dentro dele não daria certo para nenhum dos lados, e não tardou para que subíssemos para o solo novamente.

Assim, voltamos para a estradinha abandonada e em alguns bons minutos chegamos de volta até o sítio onde morei, no qual estava estacionado o "carro". Os goles da água esquecida, em que pese o sabor de mortadela da mesma, foram os melhores que já tomei (até chegarem ao estômago, pois logo começamos a nos sentir meio mal com o sabor acentuado).

Despedimo-nos do velho pedreiro gaudério, entramos na camionete despedaçada e, entre voltar para casa e ir "pedir arrego" pela porta da frente da Palavra da Vida (já que não fomos capazes de invadir o terreno deles e encontrar a cachoeira por nós mesmos), decidimos por esta última opção.


PARTE II - O Retiro Do Senhor

Entramos cabisbaixos, sem crença e nem descrença, passando por diversas casas muito bem confeccionadas, que lembravam um condomínio germânico. Fomos entrando lentamente, passando por todas as casinhas, por pessoas recessivas e por quadras de esporte, por árvores de todos os tipos... até a estradinha do sítio terminar, e então estacionamos no gramado. Antes de descer do carro, o combinado: o Paulo era sueco e estava fazendo um intercâmbio aqui. A explicação para estarmos invadindo o local era porque éramos biólogos e estaríamos fazendo uma espécie de pesquisa. Ninguém duvidou de nenhuma das informações; aliás, Paulo foi extremamente bem recebido por ser um estrangeiro tão excêntrico.

Um jovem de 22 anos nos recebera assim que descemos do carro. Ele era uma espécie de guia-voluntário, como todos que lá estavam. Admirou-se também do sueco Paulo, mas não falava inglês (estávamos nos comunicando em inglês para tornar a coisa mais realista). O guia foi extremamente simpático e nos levou, mesmo em seu horário de descanso, para conhecer todas as trilhas possíveis que levavam à cachoeira.

A cachoeira era linda, magnífica.

Após, atravessamos a queda d'água em "cordas baianas", segundo Barradas, que são dois cabos paralelos, sobre os quais caminhamos em um e nos seguramos em outro ao mesmo tempo. Ótimo programa para um domingo de Janeiro. Ele ainda queria nos mostrar uma caverna, e trilhas diferentes, mas eu comecei a dar desculpas trás desculpas e ele compreendeu que era hora de voltar. Fomos de volta ao "acampamento" deles, e ele nos mostrou tudo: todas as quadras, o ginásio musical, o local dos catálogos de répteis e anfíbios, as pessoas que lá passavam a temporada...

Então ele nos apresentou alguns estrangeiros. Disse que havia diversos americanos lá, dentre eles conhecemos o Jackson, um simpático afro-descendente "from Georgia, far away from New York", segundo o próprio. Ao chegarmos, curtia o seu rap yankee com uma vassoura em mãos (corrija-me Paul) e logo fortalecemos uma prosa bacana.

Após, passamos um tempão com um outro grupo, no qual havia um alemão (para a minha alegria) que acabou não gostando de mim (para a minha infelicidade), ou seja, não pude praticar mein Kaputt Deustch, e bem que tentei, mas ele me ignorou TOTALMENTE. O fato era que o Paul from Sweden chamava muito mais a atenção, e até eu comecei a admirar esse estrangeiro viamonense. Mal sabia eles que o guri entendia tudo, inclusive quando perguntaram para ele se ele queria ver a cobra do monitor, e ele não pôde rir. Tão logo mostraram-nos uma cobrinha muito simpática, chamada Sofia, que passava de mão em mão e não atacou ninguém.

Uma guria de uns 14 anos, alta, desengonçada e meio mangolona estava totalmente caidinha pelo Paul. "A Suécia é liiinda!" "Want a picture?", "Que legaaal!" dizia excitada para o pobre branco. Como rimos, após.

Despedimo-nos às 19:30h, quando o sol apontava fraco e a janta deles estava quase pronta. Até pediram-nos para os acompanhar, mas disse que não, que devíamos partir. Agradecemos a todos e fomos embora.

A despeito de meu sueco amigo ter-se sentido injustamente em processo de conversão religiosa, não posso dizer o mesmo: em todas as boas horas que passamos junto do grupo, nas trilhas, conhecendo o local, vendo catálogos, pegando a Sofia na mão (a cobrinha simpática), observando a cachoeira, enfim, em todo esse tempo religioso, não ouvi uma "palavra da vida" sequer, tampouco vi cruz alguma, nem uma imagem santa, nem um padre ou freira, nem um "amém" ou um zumbido de reza posto fora. Nada. Pela primeira vez na vida, adentrei um local dito religioso e saí de lá impune, sem um sabor revanchista nos ouvidos, nem com a consciência afetada. Saí de lá sem sequer refletir na existência Dele, apesar de ter visto deuses por todos os cantos - deuses verdes, transparentes, marrons, deuses correntes, úmidos, azuis claros, deuses com linguinhas para fora e até deuses leiteiros.

Acredito que Palavra da Vida seja um nome inspirado muito menos na bíblia, do que no paraíso de que é dona, tal chácara especialíssima!


PARTE III - Nesta Data Querida

Hoje é aniversário da minha queridinha; dêem-na os parabéns, não esqueçam ;)
Te amo, amada! Obrigado por esses 21 anos (opa) 3 anos ao meu lado!


PS: A foto é do local, mas não é a cachoeira referida no texto, a qual é mais bela ainda.

10 comentários:

Liliane disse...

Belas lembranças. Quando eu era adolescente, há milênios ou há apenas alguns instantes, nem sei, eu ia muito a Mato Fino. Adorávamos acampar lá, embora a total falta de infraestrutura da época. A cachoeira da foto é muito minha conhecida. Entretanto, nunca tinha ouvido falar em "Palavra da Vida", acredito que sequer existia então.
Adorei a história do biólogo sueco. Muito criativa! Já imaginaram se um sueco “da gema” estivesse lá? Seria engraçadíssimo!
Paola, feliz aniversário! Tudo de bom.

Marcelo disse...

Lucas, tu foi convertido...

PS.: Parabéns Paola!

Lucas disse...

SIIM, o Paulo tava com muito medo dos alemães ahahhahaha eu ficava dizendo "quem sabe não rola um diálogo entre eles???" e o monitor concordava hahaha

Paola disse...

a história eu já conheço :D
a parte pra mim ainda não! que bonitinho, amor! obrigada pelo post e pelo dia!!! e obrigada pelos parabéns de vocês :)
beijo, beijo!

Barradas disse...

Parabéns pra Paola! =]]]]

Ah, que bom que tu escreveste o relato, pois eu não tenho um lugar apropriado pra isso! A Adaga de Occam tá mais pra abrir bucho que pra passar manteiga. Mas é verdade, não me senti catequizado entrando lá. Mas durante os acampamentos a doutrinação rola, sim! Tinha gurizada lendo bíblia, um altar móvel, e o cara da cobra falou que eles tem reuniões diárias pra "get to know God". Duvido que um hindú se sentisse confortável ali! Ou um muçulmano!

E eu sou sueco, não sei o motivo da graça! Façamos mais enganações dessas...

Barradas disse...

P.S.: O nome certo é falsa baiana!

Sergio Trentini disse...

Parabéns, Peregrino dourado.

Parabéns, Paola!

Jonas Kloeckner disse...

Muito bom! Adoraria ter feito parte de tal aventura haha! Me senti em casa lento tal relato!
Parabéns Lucas, por ter aplicado tão bem teus conhecimentos hidrográficos "A montante, haveríamos de seguir muitos quilômetros até achá-la. A jusante, jamais a encontraríamos."
Parabéns (atrasado) Paola, por ser essa menina maravilha que tu és!
Parabéns Paulo, por ser este sueco exemplar!

TAWANE disse...

Adoro o jeito que escreve!!!!!!!!!

jaime mejia disse...

SOU SALVADORENHO E MOREI NO BRASIL NA DECADA DOS OITENTAS , CIDADE BAIXA ERA O MEU BAIRRO EN POA E OS CAMPAMENTOS EN MATO FINO CON A "TCHURMA" SAO INESQUECIVEIS , NAQUELA EPOCA NAO TINHA MUITA INFRAESTRUTURA , SOMENTE A LANCHONETE E UMA QUE OUTRA CASINHA , O TRAMO DA ESTRADA ATE O CAMPING ERA PRA BRINCAR , NAMORAR E APRECIAR A PAISAGEM , DORMIR ARULHADO PELO SOM DA CASCATA E UMA DAS EXPERIENCIAS MAS BELAS DA MINHA VIDA , SAUDADE DE TER VINTE ANOS , GOSTEI DO "CAUSO"