quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Mistério em Viamão City


Quando me dei por conta, faltavam 10 minutos para chegar à prefeitura, e eu me encontrava há mais ou menos 5km de lá. A menos que caminhasse a 30km/h (o que é um pouco improvável), não chegaria a tempo. Por conta disso, Paulo me emprestou 10 reais para que eu pegasse um táxi, e eu o prometi que, ao final daquele dia, devolveria o empréstimo. E foi por isso que, às 22h, em chuva plena e grossa, catei 10 reais e o automóvel para ir até a casa de Paulo assim que a luz da minha casa voltara.

A estrada estava vazia, exceto por dois misteriosos pedestres que, no escuro, ignoravam a chuva pesada. Andei o mais depressa que se podia naquela piscina que se formara, e, ainda assim, levei por volta de 7 longos minutos até chegar ao condomínio sombrio e silencioso onde Paulo Barradas estaria - sozinho, é claro.

Ao chegar lá, o portão se abriu sozinho. Provavelmente o porteiro reconheceu o carro, fato que jamais saberei, porque a luz da portaria é sempre muito forte, o que (com chuva) é piorado potencialmente. Sem pensar duas vezes, avancei pela lomba depressiva à esquerda, o que raramente faço. De toda sorte, estacionei em frente à casa de Paulo, na qual não se enxergava absolutamente nada. É válida uma pequena descrição da enormíssima casa de Paulo:

A parte da frente é comprida, e a porta de entrada é no alto de uma escada de madeira. Acima há um segundo andar através do qual não se pode enxergar o céu, tendo em vista o telhado grande e espalhado. Há ainda duas formas de entrar na casa de Paulo. Certa vez (podem conferir nos primeiros posts deste blog) adentrei-a pela janela, mas isto não é mais possível, face ao meu pequeno acréscimo natural de 10kg desde aquela época. No entanto, há também a garagem pela direita, longa e escuríssima, e também um corredor estreito e macabro pelo lado esquerdo. Ambas as passagens dão para o pátio traseiro, o qual porta um muro gigantesco de uns 7 ou 8 metros cobertos por uma relva que faria o maior sucesso em "A Casa Mal-Assombrada" ou "Rosered". Quem possui a confiança de Barradas consegue entrar nesta casa com ou sem alguém em casa: basta "ter a manha". E eu a tenho.

Por conseguinte, pensei: nesta chuva toda, seria ótimo dar-lhe um susto tremendo! E fui pelo corredor da esquerda. Assim que subi as escadas traseiras para entrar pelos fundos, sem enxergar quase nada (apenas vultos), dois gatos pretos levantaram e cruzaram o sentido porta-varanda, provavelmente assustados comigo. Posso dizer que fora recíproco. Achei então a tal "manha" e adentrei silenciosamente na densa e escura cozinha de Barradas, procurando fazer o menor barulho possível. E consegui.

Não era possível ver absolutamente nada após fechar a porta da cozinha-rua. Eu estava dentro da casa dele, mais uma vez, com 10 reais em mãos e com péssimas intenções. Foi então que, indo em direção à sala de jantar, vi um feixe de luz vindo da enormíssima sala-de-estar, com seu piano antigo e apavorante. Pensei: "agora é só dar o susto", pois Barradas JAMAIS (ouçam bem: JAMAIS) deixa um raio de luz artificial aceso ou uma gotícula d'água escorrendo sem ser estritamente necessário. Atravessei pé-por-pé a sala de jantar e fui contornando a de estar; ele deveria estar no sofá da parede, porque não via nada, senão uma calça jeans e uns sapatos jogados no meio do cômodo. No entanto, quando me aproximei o bastante para assustá-lo, a surpresa: ele não estava lá.

"Na certa está na salinha do computador logo ao lado". Fui até ela. É de porte pequeno e estava completamente escura. Foi exatamente neste momento que deixei a idéia de assustá-lo e passei a me assustar até com a sombra. "Paulo?" perguntei; nada. Sequer acendi a luz: voltei até a sala de estar e de jantar, e em vez de voltar para a cozinha, peguei a direção oposta: a de um muito longo e escuríssimo corredor, com um banheiro (lá) na outra ponta, uma escada e dois quartos ao seu comprimento. Num destes quartos, ele deveria estar apagado, por qualquer razão que fosse! Então fui tateando as paredes escuras, visto que não se acham interruptores facilmente nesta casa sombria; ao chegar ao primeiro quarto (onde ele costuma dormir desde que os morcegos venceram a batalha no seu antigo quarto do segundo andar), encontrei a porta aberta, mas, é claro, não se via nada dentro. Tentei então achar o interruptor na parede do quarto, mas foi muito difícil. Nesta hora, fiquei imaginando o que encontraria ao acender a luz... um corpo mutilado? Paulo degolado? Eu mesmo enforcado? O Alemão pelado?

Graças ao bom Deus, não encontrei nada disso, muito menos o próprio Paulo Barradas, o que me fez apelar para a primeira tentativa exagerada: o semi-grito. "PAULO!", e nada. O segundo quarto também possuía a porta aberta, e certamente ele teria respondido. O banheiro idem. Pois, saí daquele corredor árduo e assustador e voltei, contornando todos os cômodos citados até voltar à salinha do computador; acendi então as luzes e encontrei coisas sinistras: uma mala feita no chão, mais uma calça jogada, um livro de Darwin na poltrona e, em cima da mesa do PC, dois bilhetes molhados: um era uma lista de objetos a serem levados para a viagem que faria (ou fará?) amanhã; o outro era um simples auto-aviso: "PAGAR AS CONTAS". Imagino que Paulo não teria saído para pagar as contas às 10 da noite de quarta-feira com toda aquela chuva dos infernos; mas por que estariam ambos os bilhetes molhados? Olhei para cima e não vi goteira alguma. Certamente ele esteve por ali há pouco (após a chuva ter começado?); então saquei um papel e escrevi-lhe um bilhete em Anglo-Skälybur Arcaico, uma linguagem nobre e muito elaborada que poucos seres humanos dominam na face da terra. O bilhete era exatamente este:

"Dã Rél ueriúl Ar, riris iór mônnei, és aiv promessed iúl. Téncs for eversfingh. Rév a gud trével, and plis, domt fãk êny nordestian gãrls"

E, posta a última palavra, ouvi um barulho vindo do segundo andar. Gelei. Sem saber o que fazer, peguei o telefone da salinha e tentei ligar para o celular de Barradas, mas como não havia levado o meu próprio, não decorara seu número novo, errando por um algarismo e não obtendo sucesso. Desta forma, só restara subir ao segundo andar.

Passei pela sala de estar novamente, com a luz fracamente acesa e algumas roupas jogadas no chão; dobrei no corredor obscuro e subi as escadas com muita adrenalina. Lá em cima há dois quartos afastados por uma salinha: o antigo dele, cheio de morcegos, e o de seus pais. Sabendo que seus pais não estavam, abri a porta e pedi por Barradas, não obtendo resposta perante a escuridão doentia. Antes de entrar no último cômodo faltante, passei a chamar por Paulo muito mais alto, de modo que ele certamente teria-me ouvido.

Dei dois passos para a frente. Abri a primeira porta, que dava para uma espécie de Hall, uma mini-sala antes de seu quarto de fato. Aproximei-me da única porta não aberta até então.

Girei a maçaneta.

11 comentários:

Marcelo disse...

tu gostou de fazer isso né?
na metade do texto imaginei que o final seria algo assim... e fico muito bom o Skälibur, havia tempo que não vi ninguém escrever com tanta fluência!

Lucas disse...

Valeu cara! Muitos anos de estudo! auhuahua

o legal é ao chegar em casa depois disso tentei ligar pra ele, mas a casa só chamava e o celular tava fora de área.

Liliane disse...

Adorei o Anglo-skälybur Arcaico! Depois de toda história da outra "entrada" na casa do Barradas, achei que não ias repetir o feito, mesmo que muito tempo depois...
E o que tinha atrás da porta?????

Lucas disse...

Ih! Se tu soubesses quantas vezes já entrei naquela casa de modos alternativos hehehe

O que tinha atrás da porta?

Barradas disse...

Cara, vendo desse jeito, fica muito macabro. Um bilhete molhado dizendo "PAGAS AS CONTAS", todas (eu disse todas) as minhas calças reviradas no quarto, a luz extraordinariamente ligada, etc. O fato é que o cara da boca veio me cobrar, mas eu me livrei. Tirei a roupa e me camuflei na paisagem (leia: parede).

Jonas Kloeckner disse...

Demais cara! Foi um final digno de Clarice Lispector. Eu estava esperando um susto de Barradas em ti, o qual me renderia satisfatórias gargalhadas!
Abracitos!

Diogo disse...

Muito bom, muito bom!
Pô, cara, deixar os finais em aberto tudo bem, mas pelo menos um tu poderia fechar, só pra variar.

max disse...

Gostei muito do texto, e do final "à la Lygia Fagundes Telles"
Abraço!

francielle disse...

Mt bom:)
Não me surpreenderia mt se tu tivesse encontrado o Alemão pelado no quarto do paulo...hehehhe

Marcelo disse...

Bóóóh
eu não deixava assim

Gabriel disse...

muito legal teu blog Lucas... fika ai uma passagem minha pelo Blog... by Gabriel