quarta-feira, 8 de abril de 2009

Estresse Hereditário

Estava aqui, há pouquíssimos minutos, próximo à churrasqueira, quando aparece meu pai (só de cueca) com uma calça jeans nas mãos, indo ao encontro da própria, e minha mãe atrás ousando a seguinte pergunta:
- Tu vai queimar mesmo? - meio sorrindo, meio decepcionada, mas sempre mantendo o respeito que as mulheres das gerações passadas demonstravam por seus maridos. Ele não respondeu nada, enquanto abria o álcool, riscava o fósforo e segurava por cima, dentro do buraco da churrasqueira, até pegar bem o fogo. Vendo aquilo, não pude ficar parado.

- Pai, o que tu tá fazendo?
- Botando fogo nessa calça.
- Por quê? - perguntei assustadíssimo.
- Faz um ano que colocam lá no meu ropeiro, faz um ano! E eu sempre digo que não é minha, mas não adianta! - e sua voz começou a se alterar progressivamente, como há vários dias não via. Hesitei alguns segundos até o veneno da testosterona baixar.
- Tu já parou pra pensar que essa calça pode ser minha, ou do Diego? - Diego é meu irmão.
- Não interessa! - essa é a partícula que se usa quando se está sem um bom argumento e não se quer admitir. Depois de pensar em algo bem polêmico que justificasse sua atitude neandertal, continuou: - Se fosse de um de vocês, já teriam dado falta.
- Ok, tem razão. Mas e por que a gente não dá essa calça pra um mendigo, em vez de queimar? - esse argumento foi forte, mas tão forte que mexeu com seu lado espiritual. Acontece que, acima de tudo, mora seu orgulho; e este, nem mesmo um mendigo batendo queixo pode vencer. Ele gaguejou algumas palavras sem sentido e depois continuou atendo-se à combustão. Um tempo depois (como era de se esperar, ficara remoendo-se com o que falei por minutos), lançou uma daquelas ironias de quem jamais está disposto a descer a montanha:
- É, teu pensamento tá muito certo mesmo. - e deixou a calça pegar fogo enquanto voltava ao quarto, ainda só de cueca. Eu tive que fazê-lo perceber o quão desnecessário era aquilo tudo, apresentando um argumento psicológico ACIMA de um orgulho masculino. Hehe, eu tive essa esperança mais uma vez na vida.
- Olha só, quem tá perdendo uma calça é tu, e não a pessoa que botou no teu roupeiro. Já parou pra pensar nisso? - isso martelou tanto seu lado humanitário (que não é pequeno), que ele teve de reagir sem sentido qualquer. Perdoe-me a fidelidade das palavras, que são de muito baixo calão, mas agora que comecei, vou ser fiel até o fim:

- É muito fácil gozar com a pica dos outros. Tu goza com a pica dos outros com uma facilidade do caramba.

E foi dormir meio centímetro cúbico mais aliviado.

6 comentários:

Paulo Barradas disse...

Excelente. Soletrado.

Marcos disse...

Mais um bom post.

Paola disse...

ai-meu-deus. que medo!
tu poderia escrever um livro só sobre histórias do teu pai, de tantas que tem.
oepaieaopiaepae beijo, bu :*

Patrícia Andréa disse...

Poxa, coitado do teu pai... E a calça nem era dele... Meu pai é um cara supertranqüilo, mas qdo fica nervoso, fica beeeem nervoso (e eu acabei herdando isso dele)...

Passa lá no meu blog q tem post novo!
Bjus e boa páscoa!

Fran disse...

Teu pai me lembra alguém... humm

Cara, é sério... disse...

Não se trata apenas de orgulho. Estava em jogo também o respeito próprio, a firmeza e algo que só o homens têm: certeza do que querem, independente dos argumentos contrários. Tá bom, era orgulho, vai...