segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Insano ou Veterano

Quando me dizeis 'essas coisas só acontecem contigo' eu discordo mentalmente. Não obstante, o destino quer provar-me que, [palavrão], essas coisas só acontecem comigo.

Embaixo do famoso viaduto (na fronteira da John People com a Doce Neto) estive eu novamente aguardando a lotação on the way home com um olho desconfiado e o outro promíscuo. Nada diferente dos dias frios que nos antecederam. Acostei-me à mureta pichada a alguns metros do tal viaduto, totalmente sozinho num raio de vinte metros, exceto pelo constante fluxo de pessoas que iam e vinham diante de meus olhos e por uma única menina que resolveu embarcar em meu lado direito enquanto, naturalmente, também esperava seu transporte.

Então veio ele, entre a multidão transumante, do viaduto até a minha direção. Era um senhor de aparência normal, nem pardo nem claro, nem tão velho assim; vestia um casaco bem-traçado de pêlos tingidos e limpos, quase que formal. Conquanto o acompanhasse com os olhos - visto que olhava para a direção de onde vinha - não o havia notado de fato. Qual não foi minha surpresa, porém, quando o estranho senhor cessou seus passos rápidos a dois metros de mim e passou a encarar-me com um vigor imprenscindível. De súbito, a observação obsecada transfigurou-se num minúsculo e oblíquo sorriso. Eu o encarei de volta, com a incerteza do perigo e a convicção da razão, e assim nos enfrentamos, olho a olho, por uns longos dez segundos.O saudei ironicamente com um leve aceno de cabeça. Fui retribuído com uma inusitada indagação.

- Nos conhecemos, né?
- Oi?
- Eu e tu, nós nos conhecemos?
"É só um bêbado", imaginei, a despeito de sua voz e de seu passo não o comprometerem em absolutamente nada.
- Que eu me lembre, não...
- Como não! Do Vietnam!
- Daonde?
- Do Vietnam, rapaz! Tu foi meu companheiro!

Observei-o bem. Suas mãos estavam suspensas fora dos bolsos; não trazia consigo qualquer artefato nem bolsa. Tampouco me parecia embriagado ou sob efeito de quaisquer substâncias. Respirei aliviado e levantei a primeira suspeita, que em seguida se confirmaria.

- O senhor também lutou na Guerra do Vietnam?
- Claro!!! Tu serviu comigo rapaz! - e aproximou-se até bem perto de mim com um sorriso bem maior.
- Ah! É verdade! - disse eu, já convencido de sua insanidade.
- Eu tava vindo dali e olhei bem pra ti, daí pensei, esse cara serviu comigo no Vietnam!
- Pois é! Mas e aí, teu batalhão venceu lá?
- Ih... foi duro, foi duro. E tu?
- Também, mas isso faz um tempo já né...
- Faz tempo!
Neste momento ele notou a moça ao meu lado, olhou-a de cima a baixo e fez uma expressão redonda com os lábios, sob o som das vogais fechadas. Tornou a dirigir-me a atenção com a seguinte informação:
- Tu sabe, né. O Quartel e o Batalhão ficam bem ali embaixo, na Rua da Praia...
- Claro que sei.
- Pois é, qualquer coisa que precisar, já sabe. Rua da praia. - repetiu, apontando para o além.
- Sei! - disse eu, ainda admirado com a loucura do velho megalomaníaco, e, não resistindo, cutuquei-o mais um pouco: - E o General, como vai?
O sujeito trocou o sorriso (até agora imóvel) por uma expressão gélida.
- He, esse aí... sabe como ele é né...
- Continua o mesmo, de certo.
- Esse aí não muda mais. É que ele é da aeronáutica, mas eu sou da Marinha de Guerra, né...
- Ah sim, por isso mesmo.
Por alguma razão, toquei em um ponto fraco. Ele quis então se despedir o mais rápido possível.
- Mas foi um prazer te rever meu rapaz! - disse, procurando minha mão para apertar, a qual não achou (por óbvio). Então deu-me uns tapinhas amigáveis no ombro esquerdo, continuando: - e tudo de bom pra ti, hein.
- Então tá! Pro senhor também!
- E não esquece... - levantando a mão direita - Qualquer coisa... é só atirar! - disse, simulando o aperto de um gatilho com o dedo indicador e com um sorriso e uma piscadela.
- Tem que atirar, sempre! - respondi, sorrindo de volta. O homem então seguiu seu caminho sem cambalear.

Não sei explicar o que me passou após. A moça ao meu lado me olhou e disse "é, com louco não se discute...". Eu quis lhe dizer "se discute, sim, e se aprende", mas ela não ia entender. Pensei seriamente em fingir-me de louco para ela, mas fiquei com preguiça, e portanto apenas lhe sorri.

Verdade é que, com efeito, possa ser eu o insano soldado desmemoriado que sequer reconhece seu velho parceiro de guerra.


6 comentários:

Liliane disse...

Fiquei a tentar te imaginar como um soldado na guerra...
Especialmente em uma guerra que aconteceu cerca de 20 anos antes de nasceres!
E as fotos, ah, as fotos... hahahahahahahahahahahahaha
Realmente, tem coisas que só acontecem contigo!

Marcelo disse...

HUAHAhAuaHUAUHuhAu
Muuuuito bom cara!
As fotos foram as melhores de todas

Sergio Trentini disse...

as fotos ficaram mto engraçadas!

Marcos disse...

Ótimo post ! UHUASUAUSIUSIAS

Barradas disse...

Não sei como tu não lembra!

Diane disse...

Gostei bastante! :]

As fotos ficaram muito boas...