quinta-feira, 29 de abril de 2010

Aventuras no Porão

Recentemente fui num ambiente alternativo, por aí, e encontrei uma moça um pouco... alterada, sentada em um sofá, quase desmaiada. Um sujeito ia pegando sua bolsa quando eu disse que a conhecia. Tentei acordá-la, levei-a pela mão até o banheiro feminino; porém, na porta há uma bancada, e por opção dela, ficamos sentados por ali. Foi quando perguntei seu nome, mas ela não conseguiu dizer nada a não ser "Cuida pra mim...". Peguei a bolsa que me foi entregue e escondi atrás de nós para que ninguém pensasse bobagem. Naquele momento eu percebi que tinha me metido em uma enrascada, mas era tarde demais: já não era minha escolha.
Ela botou a cabeça entre os joelhos e eu a aconselhei a vomitar. No entanto, recebia "não" como resposta (com o dedo, é claro). Foi quando resolvi abrir a bolsa e descobrir seu nome. Abri cegamente a carteira, sem interesse em nada. Verifiquei que havia dinheiro (o sujeito não havia roubado nada a princípio). Peguei então o primeiro cartão de crédito e vi que era nominal a ela, cuja alcunha atribuída será "R".Guardei tudo e comecei a tentar acordá-la. Em vão. Por vários minutos proferi seu nome.
Ela continuava desacordada, e então jogou-se contra meu colo. Deitou a cabeça nas minhas pernas e dormiu por muito tempo, como uma criança.

Repentinamente, começou a acariciar a parte dorsal da minha perna. Entendi como um gesto de carinho e passei a acariciar seus cabelos. Esperei uns 15 minutos.  Comecei a chamá-la de novo, e nada. Ela então tornou à posição inicial (cabeça entre os joelhos) e eu falei "R., acho que tu precisa vomitar..."  segurei o cabelo dela para trás, afastei suas pernas e ela vomitou toda a bebida, e só. Fiquei muito tempo esperando o que fazer, até que uma amiga dela chegou. Obviamente, começou a fazer perguntas; eu disse que a achei naquele estado e que estava cuidando dela e da bolsa. A R. voltou a deitar no meu colo, enquanto a amiga pegou a bolsa e ficou meio preocupada; disse-lhe que não sairia de lá enquanto ela não estivesse bem. Até então, não sabia se iria me arrepender; mas o que foi dito, foi dito.

Ela perguntou se eu não sairia mesmo, e eu confirmei. Não podia deixá-la lá, de fato. E a guria voltou para a festa. Nessa hora comecei a tentar novo contato com a moça. A R. conseguiu falar só uma frase, mas que valeu por todas que ela não falara dantes: "Obrigada por cuidar de mim". Eu sorri e disse-lhe que não precisava agradecer. Ela voltou a deitar no meu colo e ficou assim por um bom tempo. E eu já estava com muita vontade de ir ao banheiro após tantas cervejas, mas é claro que não fui. Após uns 15 minutos somente, a amiga dela voltou para ver se eu estava ainda cuidando dela, e de fato estava.  Ela tentou conversar com a R., e ela só respondia coisas básicas, como sinais e murmúrios. Então pedi para que a loira ficasse com ela enquanto eu ia ao banheiro, logo ao lado. Combinado, fui e voltei muito rapidamente. A R. ainda estava desacordada, mas sentada. Então, começou a chamar pela M., que era a tal amiga loira. Pediu a ela guaraná.  A M. ia buscando, mas falei que ficasse ali; que eu iria.
Fui na fila dos tickets, falei que era urgente, contudo o segurança não colaborou. Não obstante, voltei à fila e, após alguns minutos, comprei um ticket. Depois entrei em outra fila para pegar o guaraná. Botei toda a lata em um copo e corri até perto do banheiro, onde encontrei ambas na mesma situação. Ajoelhei na frente da R. e falei "eu trouxe teu guaraná, agora tu precisa levantar a cabeça!", e ela dizia 'não'.  Eu forcei levemente com a mão na sua testa; no entanto, ela fazia força contrária. Eu falei "tu não vai conseguir tomar assim... levanta um pouquinho só..." Foi quando ela disse a primeira frase longa até então: 
"Se eu levantar, vou vomitar de novo"

Eu entendi que era sério e segurei o copo para que ela tomasse o guaraná. Ela segurou um pouco mais acima e começou a apertar para que ele subisse, como um bebê faz com a mamadeira. E ainda de olhos fechados. Eu a ajudei nisso; assim, tomou dois goles minúsculos e não quis mais; entretanto, contive-me diante do disperdício. Deixei o copo de lado e comecei a puxar assunto com ela, que não conseguiu responder. Comecei a interrogar a amiga.

- Quantos anos ela tem? O que ela faz?
- 22 - e disse o curso que R. fazia.
- Ela tem depressão?
- Não sei, mas nas últimas semanas ela andava bem triste...
- Tu conhece ela de onde?
- Fomos colegas de escola...

Sentei ao lado da R. novamente, e a amiga do outro lado dela. Ela deitou no meu colo de novo, desta vez fazendo muitas carícias. Entendi que ela era carinhosa e comecei a acariciar seu rosto, enquanto a M. a perguntava se queria ir para casa, ou para a casa da amiga mesmo, tendo ela dito que não com gestos. Ela abriu os olhos algumas vezes e olhou para mim. Eu vi que ela tinha belos olhos verde-água. Na verdade, nem tinha reparado sua fisionomia até então, que me pareceu bem bonita.

Quando segurei sua mão, começou a dar sinais de vida. Como? Bem, beijando meu dedo. Foi uma sensação bem interessante, apesar de alternativa. Então comecei a afastar o dedo dela, e propus algo inteligente; falei para ela que meu amigo (grande Marcelinho!) não tinha bebido e estava de carro. Poderíamos levá-las ambas para suas casas, e antes passarmos no Mc Donald's. Ela aceitou com os olhos na mesma hora, mas perguntou para a R. se ela queria o Mc.
Ela disse que sim no ouvido dela. Falei que seria ótimo, que ela precisava comer. Procurei convencê-la a me acompanhar até a rua. Ela disse que não iria conseguir. Eu disse que iria, mas ela era teimosa, e novamente começou a "fazer manha", como uma criança. "Eu não vou conseguir caminhar, eu tô toda mole!" Meu instinto masculino fez-me oferecer para levá-la. Ainda assim, não aceitou. Não sei se isso foi bom ou ruim.

Esperamos por mais uns 10 min, ela deitada em mim, até que resolvesse caminhar até a saída. O Marcelo junto, à essa hora. Ela foi andando. E eu atrás, cuidando para que ela não morresse. Fomos até a rua; lá ela acordou um pouco mais. Percebi que era bem, BEM mais alta que eu. No entanto, isso não parecia um problema para ela, que me abraçou e tentou me beijar.

Eu me senti um padre quando virei o rosto.

Começou a fazer chantagem emocional.  "Por quê tu não me quer?", e coisas do gênero.
E eu falei "tu não tá em condições de escolher nada..."
"Mas eu quero."
Fiquei quieto.
Ela procurava meu rosto e eu contornava de todas as formas...
"Eu não costumo fazer isso, mas não vai dar..."
"Por quê? Por que tu tá fazendo isso?
Pensei em algo bom e rápido, e só surgiu:
- Porque tu é especial.
- Especial? Como tu sabe?
- Eu cuidei de ti por quase 3 horas, te vi do coma à consciência. Acho que já te conheci o suficiente pra saber se tu é especial.
Na mosca. Como diria o Matheus, "pretending to care" é sempre válido. O que eu não sabia até então é que, de fato, ela era especial. Deitou a cabeça no meu ombro direito e falou "que vergonha". Eu falei que não precisava ter vergonha, porque já passei por situações parecidas. Ela pediu desculpas por ter estragado minha festa. Olhei nos olhos aguados e falei "tu sabe que não estragou nada", e nessa hora ela... bem, digamos que ela tenha conseguido.

O Marcelo tinha ido buscar o carro, que estava bem longe. Eu queria ter ido junto, mas não podíamos deixar as gurias ali. Tampouco estava a R. em condições de caminhar, porque nós, malandros, deixamos o carro a umas 10 quadras de lá. 
Eu a orientei a pararmos, pois suas amigas estariam olhando. No entanto, disse que não se importava. Pela primeira vez, perguntou meu nome, mas eu não disse. Deveria adivinhar. E ela pensou, mas não conseguiu cogitar nenhum. Disse que a primeira letra era L, e então o Marcelo chegou.
Eu teria ido atrás com elas, mas uma terceira guria surgiu - ia dormir na casa da tal amiga M.
Fui na frente, e a M. disse (e isso me assustou) que queria ficar primeiro em casa, e depois sim levaríamos a R. no Mc. Ela deixou a amiga com dois homens estranhos; a amiga que há meia hora atrás estava desacordada. Acho que me fiz bem confiável.

Deixamos a M. e a amiga estranha na casa da primeira. Bastou elas descerem para que a R., lá do banco de trás, surtasse.

Começou silenciosamente, pelo lado da porta, a acariciar meu abdome. Eu fiquei um pouco constrangido, pois ela ainda estava meio 'alta' e o Marcelo estava dirigindo ao meu lado... mas ele aparentemente não percebeu, ou não se importou. Ela então começou a (assustadoramente, ou não) mudar a direção da carícia, a qual puxei para cima, contra meus instintos e vontades. Ela ainda resistiu um pouco.
Mas eu fui mais forte, naturalmente.  

No meu ímpeto egocêntrico, pensei: "que outro sujeito agiria como eu agora, caralho?"

Enfim, ela se recolheu e deitou no banco, e dormiu como um anjo. Fomos até o McDonald's. No drive throw, demoramos horas para sermos atendidos. Ela dormiu durante todo esse trajeto. Quando finalmente fomos, pedi dois #4, um com guaraná sem gelo. O Marcelo fez o pedido dele. Então, estacionamos perto e eu fui para o banco de trás acordar a "donzela".
Ela acordou e comeu o mais lentamente possível.  Ainda sujou os cabelos, os quais limpei com um guardanapo. Disse que sempre fazia isso, já rindo. Percebi que estava melhorando. Ela novamente perguntou com um tom infantil. "Tem refri?", e eu respondi "claro, tem o teu guaraná sem gelo, mocinha.", dando o guaraná, que ela tomou. Quando eu acabei meu hamburguer, ela não estava nem na metade do dela.

Esperamos a moça terminar tudo e perguntamos onde era o endereço.  Ela nos guiou. Eu perguntei se o Marcelo queria que eu fosse para frente, mas ele disse que não era preciso. Ela deitou no meu colo.
Ficou me olhando sensualmentepor muito tempo, e eu totalmente sem saber como agir, em uma antítese claramente barroca: prazeres da alma ou do corpo? Eu olhava para os lados, desviando do verde-água hipnotizador. Só então peguei o telefone e liguei para o Paulo, pois lembrei que ele só tinha dois reais na carteira e devia estar na festa ainda. No entanto, deveria ter lembrado que ele age como um gato (sempre dá um jeito de ir para casa). Ele não atendeu. 

O clima começou a 'mudar' e eu falei que ela não deveria tomar nenhuma atitude; talvez outro dia.
Ela disse que queria (teimosia feminina), e eu comecei a me afastar. Ela fez aquilo com meu dedo de novo, e eu confesso que me arrepiou, mas precisava ser responsável pelos nossos atos, e até agora tinha controlado todos os meus instintos, até mesmo os mais fortes. Mas algo além estava por vir. Concluí que era o perfume afrodizíaco (falo dele num post futuro). De qualquer forma, não estragarei o relato com insanidades realistas, afinal, as pessoas não lêem até aqui para que alguém lhe jogue um balde de água fria. 

Diante de algumas atitudes, eu disse, entre sorrisos constrangidos, que ela estava louca. Falei que ela não devia fazer aquilo, que a gente podia conversar mais tarde. Caramba, eu fui um verdadeiro bispo. Ela só dizia "eu te quero, eu te quero" e eu me assustei, olhei para frente, e o Marcelo fingia não ouvir nada. Isto tudo durante o trajeto de sua casa, que era longe. Eu desviei o olhar, mas sabia que ela ainda estava me olhando. Baixei os olhos e (surpresa!) ela de fato me encarava. Perguntei "o que foi, moça?", já temendo a resposta. Ela me responde "o que foi? Tu sabe muito bem o que foi..." e teve mais um surto psicológico, tendo eu a impedido. Por sorte chegávamos perto, e o Marcelo começou a pedir mais informações a ela. Eu a convenci a sentar. Ela deu as informações e me pediu contato. Achei justo. Dei-a meu número e MSN, mas alertei: "tu não vai lembrar amanhã." Ela anotou no celular dizendo as assustadoras palavras: "Paga pra ver."
Então ela proferiu o termo mais cinamatográfico que já ouvi na minha vida.

"Eu ainda não sei o teu nome.". 
Eu falei de novo que começava com L. Ela falou "Leandro? Luciano?"
Não.
"Eu não sei!!!"
"A segunda letra é U."
"Lúcio?"
Não.
"Eu não faço idéia, podem ser tantos..."
"A última é S. A penúltima é A e a que falta é C."
"Lucas?
"prazer. "
"Achei que fosse."
Nessa hora, notei que ela ainda não estava totalmente sã.
Ela me informou que iria ligar durante a semana. Porque no final de semana os pais dela voltavam para casa, e ela passava ocupada. Além disso, falou algo sobre provas, mas não dei muita atenção. E assim a deixamos em casa.

Quando chegamos na Carlos Gomes novamente, o meu sorriso era de alívio: se há um paraíso, lá estarei eu.


14 comentários:

Diogo disse...

Parabéns por não ter sido um qualquer, ela poderia ter se dado muito mal.

Fátima disse...

É por isso que ainda tenho fé na humanidade, sempre tem alguém (nesse caso tu, amigo Lucas) que faz a coisa certa.Quando alguém está sob efeito do álcool é tão fácil tirar proveito,mas caráter é caráter.Que bom que ela encontrou alguém como tu, nesses momentos somos os anjos de quem ajudamos.Um abraço querido amigo.

TAWANE disse...

UM CAVALHEIRO!

Marcos disse...

Parabéns cara, não é para qualquer um isso que tu fez.

Anônimo disse...

hahhahah, o salvador das Bêbadas!!!!

Fran disse...

"pretending to care" sempre funciona hehe
É difícil achar um cavalheiro assim, Lucas. Bjs

Marcelo disse...

Foi tenso...

Jonas Kloeckner disse...

Seu viadinho!!!!! Huashuahs.
Usou a carta do "pretending to care" e não matou a pombinha haushaus!
Zueira, foi bonitinho. Pobre do marcelo que estava no meio do drama.
Ah! Ela ligou?
Abracitos.

Liliane disse...

realmente, não é para qualquer um... Poucas pessoas teriam o cuidado de respeitar a inconsciência alheia ao invés de se aproveitar dela.

Diogo disse...

Que vocabulário é esse, Jonas?

francielle disse...

Só tu mesmo...confesso que não gostei mt da história...tu deve saber pq...hehehhehe

Costa disse...

seu fraco.
ainda bem que o destino da espécie humana não depende de nós.

Barradas disse...

Cavalheiro? És um machista por não ter comido essa mulher.

Diogo disse...

Estratégia intuitiva: poupa uma, interessam-se dez.