segunda-feira, 8 de março de 2010

O Meu Mundo


Hoje a vi pegando a jaqueta e indo embora, e tive um pressentimento ruim. Parecia ser a última vez. Por outro lado, foi a primeira vez que não nos despedimos.
Uma triste porção de coisas aconteceram, e aqui estou a refletir sobre o meu mundo; por onde estive nesses últimos meses... tão perto e tão longe de quem amo; tão próximo e tão distante do que desejo;  tão íntimo e tão tímido de mim mesmo. Assistindo a vida escorregar pelos meus dedos no canto de um quarto escuro, sofrendo calado e explícito, em cada rua que atravesso, em cada cômodo que entro, em todos os momentos do meu dia.
Um dia, porém, excluía-se. Aquele dia da semana que, por menos diversificado que pudesse ser, me traria felicidade. Neste dia, até mesmo as coisas mais tristes pareciam boas. Se o passasse no escuro, em frente à TV, seria um ótimo dia no escuro. Se o passasse deitado, seria um ótimo dia deitado. Tudo parecia ótimo desde que estivesse ao seu lado.
O dia mais feliz da semana só terminava ao anoitecer, pouco após o pôr-do-sol. O dever obrigava-nos a dizer adeus. Eu pegava o carro e partia o mais devagar possível. No caminho, poucas palavras me escapavama. O dia seguinte seria terrível. Quando o posto aparecia, reduzia ainda mais. Só aí percebia o quão importante é aproveitar o tempo que temos, em vez de lamentá-lo. Dava sinal e entrava, e uma breve despedida se valia. Fazia a volta sempre no mesmo lugar, mas sempre inseguro. Esperava-a entrar e partia. Parecia que nunca mais ia presenciar essa cena. Na volta, procurava mudar o pensamento, mas tudo convergia na despedida. Via casais abraçados, pessoas sozinhas, cães abandonados. Muitas vezes pensei em voltar.

Mal chegava em casa e controlava-me para não ligar. Nem uma mensagem. Difícil acreditar que consegui algumas vezes. Apagava as luzes, deitava no travesseiro e só então me sentia aliviado. Eu ainda a tinha, e por isso ainda dormia.
E nos quatro dias seguintes, trevas, escuridão. Um sorriso não químico era raridade. Vontades e desejos apagados, motivações distantes como a lua. Qualquer paisagem virava nostalgia; qualquer lembrança, tristeza; qualquer tristeza, saudade.
Vivemos tão presos às nossas lembranças, aos nossos afetos e desafetos, que mal temos tempo para subir à beira e respirar. O meu mundo é onde eu morava por cinco dos sete dias, é onde eu me escondia, aguardando os dois faltantes. Neste mundo, tudo acontecia. E quer saber? Acontece. Eu ainda vivo mergulhando lá sempre que me sinto inseguro. Sempre que a sensação de estar solitário em meio a uma multidão gigantesca me abatia. Mas é nesse mundo obscuro e escondido, criado e alimentado por mim mesmo, que eu buscava forças para suportar a árida ponte entre os momentos de alegria. E nele é que eu guardava as minhas lembranças, tão doces e tão doloridas.
É nesse mundo que criei, tão egoísta, que me lembro de quando sentávamos na pracinha da igreja. Naquelas tardes de março, ninguém ao redor importava. E quando elas acabavam, lembro, levava-a até a parada de ônibus. Que ruim era ver o ônibus chegar. Certa vez, lembro-me bem de fazê-la não ver o ônibus. Ela percebeu, mas fingiu que não; e esperamos juntos pelo próximo. Nem imaginávamos que, dois anos após, passaríamos por uma situação tão oposta, numa tarde chuvosa de fevereiro. A indecisão e minhas mãos atadas causaram um desconforto insuportável, e logo a vi saindo portão afora. Senti que a perderia para sempre, e não pensei duas vezes. De pés descalços, corri sem olhar para trás, ignorando a chuva forte que nos encharcava. Encontrei-a na parada de ônibus. Tirei minha camisa, ofereci-a, mas ela negou. Tentei convencê-la de todas as formas, mas não seria possível. Então, corri de volta para casa, peguei uma toalha e um agasalho e voltei ao seu encontro. E voltamos juntos para dentro. Juntos... muitas coisas já fizemos juntos.
É deste mundo que tiro forças para viver. Nele, as coisas mais emocionantes acontecem. Como o simples gesto de apertar o copinho de plástico. Sempre que o fiz sozinho, uma melancolia muito forte pressionava meu peito. Deixava o segundo botão intacto. Era o dela. E então pensava: isso não faz sentido nenhum.
Um dia resolvi resumir tudo. Como? Mais de um ano passou e eu não conseguia decidir. Até que um dia me apareceu tudo, como se fosse óbvio: não se tratava de um ou dois momentos, mas de um todo, um verdadeiro marco, algo que eu jamais esqueceria, nem que quisesse. Já era tarde demais.
E, de fato, havia chegado à essência do tempo que passamos juntos. Eu havia mesmo renascido, aprendido tanto com os dias que passávamos juntos. E apesar de ainda considerar difícil falar sobre o que sinto, tampouco descobri como convencê-la.
E embora já tivesse imaginado como seria, cá estou. Sem rumo, sem forças, totalmente perdido. Será uma fase? E os dias de alegria, que eu jamais havia tido, aqueles delimitados pelo tempo, decididos pelo homem, aqueles poucos dias pelos quais eu ainda ansiava esperançosamente... esses dias me deram adeus naquela tarde, junto com ela, ao pegar sua jaqueta... e entrar no carro.
Porque esse mundo que criei, onde me escondo de mim mesmo, onde espero sem saber quando; esse mundo que imaginei ao meu redor, sem convidar além de mim... esse mundo existe, em sua essência...


8 comentários:

Diogo disse...

Chorei.

Max disse...

Cara, assim vc vai matar os seus leitores do coração!
Abraços.

francielle disse...

:(

Liliane disse...

Lindo e comovente. O amor é absolutamente fantático!

Juliane disse...

caramba, só nao chorei porque sou macho mas a piscina ainda continua nos olhos ;-; lindo,Lucas! a Paola é uma verdadeira rainha por ter alguem como você =) vida longa e própera ao namoro de vocês! abraços

TAWANE disse...

nossaaaaa, defino tudo isso com uma palavra: lagrima - essa que esta escorrendo no meu rosto agora!

Sergio Trentini disse...

o que

Fátima disse...

Soberbo Lucas. Eu também tenho meu mundo muito próprio, mas não saberia descrevê-lo de uma forma tão linda.É raro, alguém tão jovem como tu, perceberes o amor com essa tamanha profundidade, sem querer desmerecer os jovens, mas as vezes é preciso viver muito para ter essa visão que tão bem defines no teu texto. Mais uma vez afirmo, isso é dom de escritor, que nesse texto em especial, se revela tão poético e sentimental que comoveu teus seguidores.É por isso que sou tua fã.Abraços.