terça-feira, 19 de maio de 2009

Tenha Muito Cuidado

Não vejo outro título para o post de hoje, já que, por não o ter, tanto desastre me aconteceu; mas como diria minha vó, "desgraça pouca é bobagem" (ok, ela nunca disse isso, mas a tua vó já), e eu concordo com a velhinha: quando uma desgracinha acontece, parece que o destino aproveita a brecha e enfia tudo de ruim nos próximos momentos. É assim que começo a trágica e remota história do meu dia de hoje.

Eu não lembro bem qual dos meus pés tocou o chão por primeiro hoje, mas considerando que o lado direito da minha cama é encostado à parede, tenho sérias desconfianças. Calma lá, ceticozinhos viamonenses; quando se passa por um dia como esse, até marmota faz simpatia. Eu acordei às seis da manhã para tomar meu único banho matinal da semana, uma vez que hoje era dia de aparecer. Há algumas semanas atrás, o professor de física pediu para que alguém - eu - levasse um violão para reproduzirmos uma paródia sobre o conteúdo. E eu lembrei (após 20 lembretes no celular, 10 avisos na geladeira, 5 pesadelos, inúmeras gotas de floral e uma seção de automutilação), mas eu lembrei, eu lembrei! E separei o violão numa capa velha e suja cujo fecho inexistia. Antes de sair de casa, tomei o banho: considero este o início do ciclo de horror.

Logo no início toquei a pele do pescoço e não cortei a mão por detalhe. Era hora de fazer aquela barba morna da manhã. Passei shampoo no cabelo, fazendo bastante espuma e espalhando-a por toda a área coberta de pelos faciais (tá, menos a sombrancelha). Isso inclui o lábio superior, de onde tirei um talho, um bife, um pedaço de carne mais suculento que uma lagartixa graúda. Atribuí à normalidade e saí do banho, atrasado, tentando estancar o jorrante sangue que irrigava minha face. Não esqueci o violão.

Ao chegar no ônibus quando ele já se preparava para partir, entrei e senti que ia ser um dia comum. Ora, enganei-me. Sentei na penúltima poltrona solitária no fundo, acomodei o violão na parte de cima, onde se guardam malas, e relaxei. Não sei se foi a atração negativa ou o fato de eu ter aberto as memórias póstumas de outrem, mas alguma coisa fez com que aquela velha senhora fedendo a tabaco sujo sentasse exatamente atrás de mim, embora 98% das poltronas estivessem desocupadas. É, às seis da manhã. Eu fechei o livro, arrastei o violão e sentei duas poltronas adiante. Após, reabri o livro e dormi instantaneamente, o que tem se tornado cada vez mais comum na viagem de uma hora e meia que faço todas as seis da manhã. Por que será?

Acontece que eu milagrosamente sempre acordo exatamente na parada de chegada, ou um pouco antes. E onde acordei hoje? Nem eu sei. Pedi para descer; o motorista, que já me conhece, dava aquele sorriso de "se fudeu, companheiro", e eu me engajei a andar sem destino com um violão, com um casaco e com uma mochila, todos de peso considerável. Pensei em achar o caminho sem pedir ajuda, tamanha minha decepção, mas quando parei de ver asfalto resolvi pedir ajuda. Após, caminhei uns quinze minutos até chegar próximo a um lugar familiar, de onde pude partir até o curso. Cheguei lá com um violão pesado de capa amarrotada e sem lugar para segurar direito; meu braço cansado e maltratado. Subi aquelas escadarias com uma vergonha que não tinha calculado no dia anterior. Foi nessa hora que pensei, após relembrar os fatos que já me haviam acontecido naquelas poucas horas de atividade, na possibilidade de ser hoje um daqueles dias em que tudo dá errado. Depois, achei isso tudo uma bobagem. Deixei o violão numa sala reservada até o período do professor. E o período chegou.

O professor deu uma olhada geral na turma de 300 pessoas (em média) e concluiu em voz alta que, já que ninguém trouxera o violão, ele avançaria no conteúdo. Senti-me humilhado, e sabe como é viamonense humilhado. Mandei quilos de bilhetes dizendo que havia trazido o violão. Ele não leu nenhum. Mas por algum sinal divino, após eu já ter aceitado a derrota, ele pergunta sobre o violão novamente e eu levanto o braço com vigor. Toquei para aquela gente qualquer e esperei as aulas terminarem para tirar algumas dúvidas de geografia, sugestão de um professor.

A ideia era perguntar a ele sobre a linha internacional de mudanças de data e ir embora, pegar o ônibus de volta à colônia açoriana com o maldito violão machucando o braço. Antes, fui ao banheiro por um mísero minuto. Ao chegar na sala de dúvidas, vi uma fila circular de umas trinta cabeças, e o pior é que quase todas eram femininas. Pior? Sim, pior: cada uma tinha umas 5 dúvidas, e todas levavam consigo a prova do simulado com 25 questões. "Merda de democracia". Quando consegui perguntar, compreendi. Mas já passava 10 minutos que o ônibus partira. Fui até a parada igualmente, para esperar o próximo. Sabe-se lá quando chegaria.

Conforme a idade veio chegando, passei a interessar-me pelo psicológico das pessoas. E é por isso que faço coisas alternativas em público, como tanto devo já ter comentado, mas hoje foi uma das mais ousadas: tirei o violão da capinha, sentei numa roda de pedra próximo à parada para acompanhar o ônibus de longe e comecei a tocar em meio à multidão. Se eu não estivesse arrumadinho - sabedor do episódio musical - receberia uma moeda. Mas não; recebi tudo, menos moeda: olhares de censura, risadas, olhares interessados mas distantes, sequer olhares, as reações das pessoas são muito diferentes. Mas moedinha que é bom, nada.

Olhando adiante, uma hora, vi que o segundo ônibus havia passado. Triste fiquei. Toquei mais um pouco, uns 30 minutos, e mais um ônibus passara. Dessa vez, me atraquei nele correndo por quase duas quadras. Quando ele finalmente parou - e eu já podre - percebi que era idêntico ao meu, mas não era o meu; há três tipos de linhas para aquele seletivo (e só tinha conhecimento de duas). Aquela não era, certo. Sentei em frente a uma loja para respirar e já comecei a tocar de novo. Um grupo de jovens balaqueiros riram de mim, e eu ri depois, percebendo o quanto os incomodei com minha "coragem?" de assumir uma postura epicurista sozinho, enquanto eles nem em grupo o fazem. Eu não fiquei com raiva, pelo contrário: fiquei feliz por existirem.

Mas logo depois percebi que uma multidão que aguardava algum outro ônibus estava-me lançando olhares tão alternativos que sucumbiram minha voz e abafaram meu volume. Fui até a parada anterior, de onde havia corrido. Desta vez, porém, aguardei em um local mais apropriado para a próxima maratona, e continuei a tocar violão. Ninguém para para conversar comigo diretamente, pensava eu, ainda que a nova reforma tente me confundir. Nisso, vi um vulto passando por mim e voltando depois, e então lhe direcionei o olhar. Era um homem apontando para mim e para o violão com um sorriso enorme no rosto, e fazendo gestos de aprovação; quis o destino que, ironicamente, a única pessoa a me aplaudir fosse um surdo-mudo. Agradeci com um sorriso e ele foi embora. Pensei: "pronto, eis a compensação do meu dia ruim; só pode ser isso." Não tardou para que a terceira corda do violão estourasse e eu novamente mudasse de opinião.

O mal-humor que tanto controlava começou a me dominar. No entanto, logo chegou o ônibus e me acalmei naquela poltrona cara e supervalorizada. Dois minutos de sossego bastaram para o velho motorista ligar no volume máximo (não estou exagerando) a rádio AM, com os grandiosos comentários futebolísticos do sudeste. Era o bastante: levantei e pedi para que abaixasse. O velho desligou e pediu desculpas. Agradeci. Era essa a compensação meu dia. Só poderia ser. Peguei no sono para que não mudasse de ideia novamente.

Fui acordado no centro de Viamão, bem longe de minha casa, com a voz do motorista: "é o fim da linha". E eu: "como? Essa linha não vai até o Condado?" e ele, secamente, dá o troco: "não". Desci para pegar o terceiro ônibus do dia, e o quinto relacionado à minha difícil aventura diária. Aprendi neste momento que havia três linhas para aquele ônibus, e não duas, como pensava desde que fui acordado, em outra ocasião, no meio de um deserto viamonense.

O natural é que eu chegasse em casa às 13:30h. Neste momento já era 15:30 e eu sequer fazia ideia do horário do pinga-pinga a ser pego. Dirigi-me à parada com aquele pesado violão - não sei bem como não o esqueci nessa dura trajetória - e esperei por muito, muito tempo. Já nem me importava com as velhas fumantes (aliás, como há velhas fumantes), e nem com o cigarro que elas jogavam no chão após tossirem feito um pré-defunto. Cheguei em casa às 16h.

Chegando perto do portão, vi que o Babuíno - vira-lata de que há dias ando cuidando - estava a lamber a Vilma, que retribuía com muito carinho. Vilma é uma negra e teimosa rotweiller, cujas vontades vêm antes do respeito. Porém, simpatiza com o Babuíno. Vi aquela cena de amor e pensei: "indiscutivelmente, essa é a compensação do meu dia terrível". A Cleci abrira o portão e o Babuíno entrara. Neste momento, a Layka (uma cadela nórdica, loira de olhos azuis e de estatura polentosa) atacara o indefeso babuíno. A sorte é que Layka é respeitosa, igualmente ao Comitatus que regia a relação de seus antepassados, e a compensação do meu dia viu-se esvairir conforme separava a briga. Entrei em casa e me recebeu a Cleci.

- Dia difícil?
- Nem tanto.
- Que bom, preparei teu almoço, tava preocupada. - parei de responder aí. Mas ela não parou de falar. Almocei com aquela matraca contando problemas e alegrias e futilidades e inutilidades e tudo o mais, e eu quase utilizei os talheres para outros fins. Enfim. Não havia ainda compensação, só mais problemas. Pedi ao Oráculo para que enfiasse tudo que passaria de ruim na vida nesse dia. Melhor um fudido inteiro que vários meio-fudidos. Ah, pro inferno essa expressão recém criada.

Acabei o almoço. Algo me dizia que a tão sonhada compensação do meu dia estaria na natureza, e pus-me a descascar uma tangerina. A Vilma adentrou metade da sala. Pedi cuidadosamente, já que a motivação me falhava, que saísse. É claro que ela não obedeceu, pois ela não tinha vontade de sair, e o que importa é a sua vontade, e não a minha (aliás, que cabeça a minha). De longe, acompanhei-a nos olhos enquanto mastigava sem vontade aqueles gomos azedinhos, separando as sementes. Foi então que me ocorrera uma vontade, também. Atirei uma semente naquele bicho. Acertei perto, e ela, para a minha surpressa, mastigou-a e engoliu, pedindo outra com o olhar. Descobri que ela come sementes de bergamota, e passei a compartilhar aquela parte inútil com ela, fechando o ciclo de reaproveitamento da natureza. Reservei o último gomo, porém. Ela merecia. Merecia uma gomada nas fuças.

Quando acertei-lhe com aquele gomo molenga bem no meio da face - o que não lhe causou nem cócegas -, ri como uma criança feliz. Ela comeu o gomo assim que o encontrou, e foi para a rua por vontade própria.

E esta foi a compensação do meu dia.

18 comentários:

Paulo Barradas disse...

Adoro quando tu toma no cu com força assim. Tem um lado bom.

Marcos disse...

Quando chegou na parte da cachorra , jurei que tu ia contar que ela engasgou com a bergamota UHAUAHHAUHAUHAU.

Lucas Di Marco disse...

Antes fosse.

Diane disse...

lucas, acho que tu te superas ao mostrar que é realmente um ótimo escritor, já que tu pegou um dia com coisas tipicamente normais, ainda que ruins, e transformou no relato de um dia tenebroso. afinal, quem nunca perdeu o bus? ou qual homem que nunca se cortou fazendo a barba? e, poderia ter sido muito pior.
não menosprezando teu dia, e sim elogiando tua capacidade. ;]

Brasil Empreende disse...

Ola visitei seu blog e gostei muito e gostaria de convidar para acessar o meu também e conferir a postagem desta semana: Brasil, Um celeiro do Futebol-Mundial!
E participar, também, da corrente Cadê o Amauri por novos jogadores na seleção brasileira.
Sua visita será um grande prazer para nós.
Acesse: www.brasilempreende.blogspot.com
Atenciosamente,
Sebastião Santos.

Lucas disse...

Sebastião Santos é um nome bem engraçado. Duvidei que fosse real.

Paola disse...

definitivamente, Sebastião Santos é um nome engraçado.

por que a Vilma sempre recebe algo na cabeça? ela merece, mas bergamota arde os olhos!

não é tangerina, é bergamota, hum.

besos!

Diogo disse...

Mais do que habilidade como escritor, é o próprio funcionamento dessa mente demoníaca que torna as histórias tão interessantes. É que pro Lucas não existe meio-termo:ou é excelente ou (como na maioria das vezes)é terrível. O que para os outros parece um exagero engraçado, para o nosso amado contador de histórias é a nítida realidade.

Sergio Trentini disse...

Admiro mais que babuíno correndo atrás de bunda gorda.

Marcelo disse...

O Diogo disse tudo!

Lucas disse...

Eu gostaria de poder concordar, mas só posso aceitar, já que não sou bom em autocriticismo. São histórias, ora, e histórias devem ter o quê do autor, ainda que verídicas (como esta é, absoluta). Não digo que não haja meio-termo, mas... se eu os contasse, essa história teria tantas páginas quanto a Bíblia Albina, e tantos leitores quanto a Bíblia Satânica!

Lucas disse...

E claro, pelos comentários só me resta agradecer!

francielle disse...

tu é uma vigem, guri!!

Lucas disse...

se sou virgem? não, eu juro!

Patrícia Andréa disse...

Ninguém merece se perder desse jeito... Q horror cara...

Gabriel disse...

eu ri.

francielle disse...

heheheheh...vigem: leia-se viagem

R. disse...

Não vou ficar de putisse. Teu texto tá bom pra caralho. Tá dosado, comedido, e tem umas espécies engraçadas de cotovelos, de esquinas, que quando dobram, desdobram risadas automáticas, quase mecânicas - só não mecânicas porque a imprevisibilidade não permite. E ó eu de putisse.

O lance com o violão eu pretendo fazer com uma cordeona, nessas férias. Bom saber que ir arrumadinho não funciona. (:

E eu odeio bergamota.