terça-feira, 10 de novembro de 2009

Perturbações Noturnas

Foi há alguns meses que eu estava, junto de um amigo, em um corredor de um prédio muito velho. Ambos observávamos quão intenso era o movimento de moradores naquela hora da noite, os quais iam todos em direção a um apartamento em especial. Por vários minutos, ficamos só observando - sem entender nada - até que não contive a curiosidade e fui até o tal apartamento, cuja porta estava entreaberta.

"Com licença", disse ao senhor que recepcionava os condôminos, ao passo que ele, simpaticamente, indagou com um "sim". "Desculpa a intromissão, mas o que é que tá acontecendo aí?".

- É uma moça que acaba de dar a luz. Os vizinhos estão tudo aqui para cumprimentar, não querem entrar também? - convidou-nos o velho homem. Eu recuei, mas ele insistiu com um gesto amigo, e acabamos por entrar.

O apartamento era pequeno e simples, embora bem arrumado. Senti um pouco de vergonha ao me deparar com todos os inúmeros moradores daquele prédio no qual jamais entrara antes, mas praticamente não fomos notados. As vinte ou mais pessoas encontravam-se na sala, sentadas nos sofás ou de pé, conversando e sorrindo alegremente. Não vimos bebê algum.
Passado algum tempo, discutíamos que já era hora de voltar, e até chegamos a mencionar em direção à porta, mas o senhor que nos havia recepcionado aparecera do nada, perguntando se já havíamos cumprimentado a mãe. Na mesma hora, percebemos uma senhora saindo do único quarto que havia na casa, ao passo que um homem calvo e alto adentrava o cômodo. A senhora que saíra estava com um sorriso imenso no rosto e seus olhos brilhavam como se recém tivesse visto um anjo. Logo escutamos seus comentários com as outras mulheres do recinto, perdidamente admirada.

- Não, ainda não. Ela tá dentro do quarto?
- Sim, sim. Vou pedir para vocês serem os próximos.
- Mas meu senhor - disse eu sob um sorriso tímido -, na verdade nem conhecemos a moça, eu acho que já vamos indo...
- Não, ah, não, jovens! Ela vai adorar receber vocês. - começou então a sussurrar - sabe, ela andava muito perturbada ultimamente, desde que o outro filho dela partiu... era da idade de vocês, assim.
- É mesmo? - tentei parecer surpreso. O fato é que realmente o velho me sensibilizara.
- Mas se não quiserem ir, tudo bem... - disse-nos sorrindo humildemente.
- Não, não, a gente vai ali dar um "oi" então.
- Ah, que bom, que bom! Fiquem a vontade, assim que sair o tio...
- Tá certo, muito obrigado.

A espera pelo quarto da mãe foi torturante. Ficamos de pé, encostados a uma parede do canto da sala enquanto as pessoas conversavam entre elas, divididas em vários grupos. Ninguém ousou conversar conosco senão o velho. A despeito disso, tampouco conversamos, tão impaciente estávamos. Nossa angústia foi abafada quando vimos o homem calvo saindo do quarto com um sorriso satisfeito no rosto sob seus bigodes altos. "Mas que mulher de sorte", disse à provável esposa, que o aguardava com algumas senhoras por perto. Todas sorriram entusiasmadas. Hesitamos tomar partido, mas o senhor reapareceu perto da porta do quarto, fazendo gestos para que entrássemos, e antes de entrarmos, retornou à cozinha, onde antes estava. Pressionados, acabamos nos dirigindo ao tal quarto, cuja porta estava encostada.

Eu fui na frente. Tateando a porta, para que abrisse de leve, notei a escuridão a que estávamos entrando. Somente se via o que proporcionava um velho abajur bem ao fundo do longo e escuro quarto. Encostamos a porta de novo, e pedi licença, ao passo que, ao longe, pudemos ver a mãe deitada na cama, segurando pequenos lençóis em seus braços trêmulos, que logo encostou o dedo indicador perpendicularmente aos lábios, pedindo que não fizéssemos qualquer ruído. Pé por pé, avançamos em direção à cama, que muito longe da porta ficava. Não se ouvia nada, tampouco percebemos qualquer coisa ao nosso redor, a não ser o olhar fixo da mãe ao véu que segurava com todo o cuidado, protegendo-o de nossa visão. Chegamos mais perto sem pronunciar uma palavra sequer. Meu coração batia forte, a situação era completamente inesperada e, em pouco tempo, passara de constrangedora para aterrorizante.

E esta situação se confirmou, de fato, quando ela afastou os panos de leve, para que pudéssemos ver.

14 comentários:

Rogerio disse...

nossa..mas oke vcs viram???...tem continuação...intrigante o texto.,.

Marcelo disse...

Nossa cara, fico muito bom!
continua logo ai :P

Marcelo disse...

a propósito, 2 postagens no mesmo dia, não eh sempre que isso acontece!

Diogo disse...

Ah, eu já vi esse filme. "O que a mãe protegia com medo e repulsa em seu véu era uma criatura estranha; aparentava ter 90 anos, apesar de ter recém nascido".

Lucas disse...

não, seu safado!

Liliane disse...

E o que era, entâo? Estou curiosa!

FabioZen disse...

Tem continuação?Instigante,mandou bem!

Paola disse...

eu sei o fi-iiim! vou contar, que nem eu sempre faço (sem querer) e estrago tudo, haha!

te amoooo! beijos!

max disse...

Apesar de já saber o fim estou curioso para o próximo episódio!
Abraço.

Marcelo disse...

Lucas malandrão :(

Inez disse...

Muito bom seu conto, está bem escrito.

Sergio Trentini disse...

Tu é um gênio, cara.

Diane disse...

vamos, conta o resto logo!

=P

Paulo Barradas disse...

Tu narras o nascimento do Alemão como ninguém!