terça-feira, 20 de outubro de 2009

A Raça Metálica

Ontem eu fui (sozinho) a um show de metal melódico. (E daí?) Constatei algumas coisas.

Primeiro, percebi que metal é algo extremamente infantil (e portanto muito divertido). A gente sente uma mescla de poder com identidade, não sei explicar. Mas definitivamente estou ficando velho, ou não nasci para ser metaleiro mesmo.

Para começar, cheguei à fila duas horas antes com um único propósito em mente: assistir o tecladista tocar Stratosphere. Eu era o único de camisa bordô e calça jeans clarinha perante a uma multidão preta e cabeluda. Gordos tetudos, metrossexuais, mulheres bagaceiras (em geral obesas) e fumantes por todas as partes, gritando como macacos, uns fumando e bebendo, outros extremamente nerds, mas todos com o mesmo ar infantil nos rostos, inclusive os (bem) mais velhos.

(À direita, o vocalista Timo Kotipelto, crente em sua origem, Príncipe Nórdico Medieval e trajado de Cavaleiro Angelical do Apocalipse.)

Fiz dois amigos em questão de segundos. Um era um sujeito de Neu Hamburg que também foi sozinho com o único propósito de assistir ao show. Bastou que eu comentasse com ele sobre o horário para que ouvisse sua voz até a entrada do show. Logo formou-se um bolo de metaleiros estranhos por volta de nós, cada qual com seu diferencial de estranheza (físico, psicológico, psiquiátrico, psicodélico e psicopático), e todos só sabiam falar de um assunto: metal. Assustaram-se alguns quando, em meio a um acesso de insanidade de minha parte, resolvi agir naturalmente e perguntar a um sujeito de onde ele vinha, devido a seu sotaque estranhíssimo. Logo, todos perceberam o quão "anti-metálico" eu era e se afastaram aos poucos. Fiquei então conversando com este paraense, sujeito "gente boa da porra", segundo o próprio. É um oficial da aeronáutica lá, e me passou perversas recomendações sobre o lugar, o que só pude acreditar quando ele confessou estar com frio, e que estava pensando em pegar um moletom. Eu estava prestes a tirar a camisa perante aquele calor infernal da Cidade-Baixa. "Lá é um calor infernal, pô, lá é seco e faz 40º no inverno, tá doido, pô!". Falou que lá o funk tem pouca expressão; em compensação, o brega assume como líder nas paradas baládicas. Fato que o faz querer migrar para cá.

Ao entrar, RElembrei que, embora ache o Heavy Metal divertido, detesto a raça metaleira. Digo isso porque de fato é uma raça: todos procuram ser iguais, vestir-se iguais, usar e falar as mesmas coisas, ter o mesmo tipo de cabelo, as mesmas atitudes... e por que não é uma fantasia? Porque a maioria é assim em tempo integral, mesmo...

O engraçado é que grande parte daqueles rostos já me eram conhecidos, devido ao show do Iron Maiden, há quase dois anos atrás. E olha que não sou de guardar rostos. Havia um cabeludo (ok...) loiro, liso, alto, meio gordo, meio musculoso e com uma cara de travesti limpo. Ele desfilava pela fila como se fosse o rei do metal, como se fosse o membro da banda. Tudo isso, para eles, parece ser muito bonito, gerador de orgulho. Mas para mim parece piada. Eu queria que eles pudessem se ver por um instante do jeito que eu os via... trajados de besouro.

Não fosse suficiente (eu não sou moralista, e nem poderia ser, se é que me conhecem os gostos mais GLAM's que há anos me acompanham), eles ainda são extremamente deficientes em caráter. Eu não sei por quê, mas todos eles queriam parecer maus. Maus, maldade por maldade, sem fundamento algum. Tratam-se como vikings, odeiam-se mutuamente desde o primeiro olhar até a primeira palavra - então passam a ser "blood brothers" e falam de metal até algum fator externo cortá-los. Foi assim que me fui recepcionado ao alcançar o meu lugar na terceira fileira próximo ao palco, muito perto do tecladista o qual desejava ver. E vi. Eu teria ficado ainda mais à frente, mas assim que cheguei na segunda fileira, mais à direita, um casal cutucou minhas costas e a "moça", trajada de prostituta nórdica, falou com voz de defunto: "ei, esse lugar era nosso", ao passo que eu respondi, com uma reverência bíblica com as mãos: "por favor!". Não extraí sorrisos; primeiro, porque notaram minha ironia (eles já esperam, de início, algo ruim de todo mundo), e segundo porque eles não sorriem jamais, a menos que estejam diante de uma vodka e de um cd do Sepultura. Foi quando resolvi ir para a tal terceira fileira, bem mais à esquerda, próximo ao tal tecladista louco.

Lá, no entanto, todos os olhares ao meu redor, fossem para mim ou não, significavam ódio e avisos de combate. Era como uma guerra fria, uma paz armada, sei lá. Ao meu lado havia um graveto, um sujeito alto e magricela, com cabelos cacheados e (inevitavelmente) cheirando a cabelo de mulher. Assim que um cara (que estava na minha frente) saíra para o lado, eu avancei quase que instintivamente, e esse graveto ao meu lado botou a mão para que eu não ocupasse o lugar daquele, que voltou logo. Senti um ódio tão profundo que até compreendi Varg Vikernes (que, aliás, foi solto. Cuidem-se, cristãos).

O show foi maravilhoso. Não compreendia por que todas as palavras que os finlandeses falavam em português eram palavrões. Aliás, percebi o quão diferente de todos eles eu era, porque toda a platéia (antes do show) ficava gritando a uma só voz "PORRA! PORRA! PORRA!". Não bastasse, o baixista (muito semelhante no jeito, nas roupas e até fisicamente a um amigo nosso, conforme podem perceber na foto à direita) tocou, uma hora, um tipo de bossa nova, com uma paradinha boba no meio, quando ele gritava "EI, PORRA!". Fez isso repetidas vezes, e em todas foi acompanhado de todos nós (inclusive de mim, que nem sabia por que fazia aquilo, mas achei tão engraçado...). Hoje pela tarde, resolvi pesquisar o nome dele. Para a minha surpresa, o sujeito se chama Lauri Porra, e é finlandês nato. Pelo jeito, aprendeu algo àquela noite.

E para não dizerem que metal é coisa de cabeludo vagabundo, tivemos aulas de cultura nórdica passadas direto de nosso ídolo-mor. No fim do show, aprendemos a contar até quatro em finlandês.

Já esqueci, porém.

(PS: Eles não tocaram Stratosphere)

13 comentários:

Paola disse...

e não é que o cara parece o nosso amigo mesmo! mas a cara dele nessa foto me lembra o max do bbb. sente a pose do vocalista, haha! no próximo eu vou 8)

Lucas disse...

amor, ele é IGUAL ao max do BBB, eu falei isso pra mim mesmo o show toooodo haahaha até o olhar dele, a risada, os gestos, é idêntico!

Fátima disse...

Me senti em pleno show, e lembrei dos muitos alunos metaleiros que tive durante minha carreira de regente de classe. Aliás, muitas vezes me sentia como uma maestrina alienigina, tentando reger uma orquestra das mais variadas tribos, de patricinhas à neo-nazista, passando por: skatistas,surfistas,emos,nerds,clubbers, crentes,roqueiros de todas as nuances, darks, góticos,enfim, tudo que é possível imaginar. Mas para quem é professora de história tem uma vantagem,aprendi muito sobre as tribos urbanas, no fundo todos querem a mesma coisa: não vestem o uniforme da escola, mas entram para uma tribo para vestir o delas, muitas vezes sem saber muito bem porque estão lá. Certa vez perguntei à um aluno metaleiro (que no fundo tinha uma expressão muito romântica nos olhos):
Vocês gostam muito de vestirem-se de preto não é? Sabe o que ele respondeu depois de dar um sorriso suave? Professora as camisetas são baratas, as botas servem para qualquer hora , fica mais barato para se vestir.Taí, ele escolheu o uniforme mais barato

Amigo da vítima do Ferrari disse...

Pô cara, cada dia que eu leio o teu blog eu me convenço mais que tu escreves muito bem! O mais hilário na minha opinião foram: prostituta nórdica, se puderes me descreva ela melhor, hushahsuahusahus; e o Lauri Porra, eu não acreditei quando tu escrevestes, ai fui pesquisar e não é que o nome do cara é este mesmo? Será que ele tinha consciência do que estava dizendo?
Abraço.

Lucas disse...

Caro amigo da vítima do Ferrari (suposto amigo meu), seria grosseria da minha parte perguntar quem és tu? hauhuaua

Bom, a prostituta nórdica trajava roupas ostro-góticas, com cores e ares de depressão pós-parto, meia arrastão furada, maquiagem cadavélica e cabelos de baixíssima frequência luminosa.

Basicamente um Marlin Manson feminino, buscando um "eu" mais sensual, se é que existe sensualidade nesse tipo de ser.

Um abraço!

Lucas disse...

Ainda ao amigo anterior: sim, ele sabia o que significava seu nome em português muito bem hahaha até porque, por diversas vezes, o vocalista chamava ele de Mr. Sperm, e eu não entendia por quê, pensei que ele era fissurado por esperma, afinal gritava isso o tempo todo...

Fátima, adorei teu comentário! Foi basicamente um complemento à postagem, e poderia ser um próprio post (dos bons!). Ninguém melhor do que uma boa professora de história para entender os movimentos jovens e a tendência que as gerações têm de se diferenciar cada vez mais, nem que isso venha de encontro à sua aparência. Agora, quanto àquela história de "ser mais barato", já ouvi isso também, e para mim é só uma desculpa de um jovem metaleiro para não se sentir infantil perante a uma professora.

Jonas disse...

Presumo que eu seja o Porra haushauhs! Mais uma vez, gabaritastes com os comentários, e arrecadou boas respostas também (fátima, professora de história)!
Juro que voltarei a ler teus tópicos, caro amigo!!
Abraço.

Lucas disse...

Tens uma dívida, magrão.

Abraços

Marcelo disse...

Muito bom o post!
E quem diria, o cara se chamava porra...

Fran disse...

não acredito que não tocaram a música que tu queria!

Anônimo disse...

Olá..eu sou um metaleiro. achei bem interessante suas palavras nesse texto. mas acho que não deveria generalizar...cada um tem seu estilo..respeite isso.

Paulo Barradas disse...

Esse porra toca pra caralho.

Anônimo disse...

sou metaleiro,li seu texto e em enquanto o fazia ri bastante,com sua historia, e nao deixa de ser verdade o q vc disse arrespeito dos fans de metal,as vezes quando vou a shows de metal penso q a maioria dos caras nao tem nada na cabeça,porque é cada um mais sem noçao do que o outro...o nome do tecladista foi foda...rsrs!!