sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A Indesejada Entre As Gentes


Ontem foi aniversário de morte de meu avô, e, também ontem, faleceu meu primo, vencido pela leucemia, com a qual lutava há meses - um sujeito de 30 e poucos anos, alegríssimo e que recém havia realizado seu sonho - a paternidade.

Também ontem - e nessa hora deve-se perceber que a desgraça jamais se anuncia sozinha - quase que eu (eu, quem vos escreve) parti desta para uma melhor. E antes que meu amado Didizão venha buscar, nessa afirmação, confirmações para seu argumento (no qual eu abuso de hiperbolismo para obter um bom texto, o que não discordo), já lhe adianto, irmãozinho: eu realmente a vi de perto!

Eu vi a indesejada de perto, mas de tão perto que eu poderia tê-la tocado, e me admira ela não mo ter feito antes. O que aconteceu foi o seguite:

Eu tenho um complexo com um certo professor, cujo nome já esbanja superioridade: Ferrari. Ele é o tipo do sujeito que entende muito de química, mas não sabe transpassar nem um terço. O defeito dele, segundo minha visão de estudante, é que nos trata como se fôssemos universitários, como se já soubéssemos exatamente o que ele sabe, mas havíamos nos esquecido no dia anterior. E por conta disso, não posso deixar de enchê-lo o saco no fim da aula.
Ele já me conhece - embora jamais tenha olhado nos olhos de ninguém -, mas pelo tom da minha voz, já percebe que se trata 'daquele que sempre pergunta no fim da aula'. O meu sonho era que ele, após o término da aula, no corredor, parasse de caminhar, virasse para mim, mesmo que de pé, e me ouvisse - e me respondesse com calma. Mas esse sonho é infundado. Ferrari jamais perde tempo.

Se eu ficasse parado, não teria minha dúvida respondida. Digo isso porque ele termina a aula, despede-se e sai andando, seja para onde for. Hoje, seria para o prédio da outra rua, sede segunda do curso no centro. Eu lhe perguntei sobre pressão osmótica ainda dentro da sala, ao passo que ele fora me respondendo no corredor, depois descendo as longas escadas até o pátio, depois descendo as escadas em direção à saída do curso, e depois na calçada da rua, até que chegamos na esquina, e ele ainda falava, enquanto eu procurava prestar o máximo de atenção naquelas palavras soltas ao vento da Alberto Bins.


E foi nessa esquina (Alberto Bins X Senhor dos Passos) que eu presenciei a face daquela que as gentes não desejam. A calçada dessa esquina, pela qual o Ferrugem subia (dobrando 90º), era estreita, e já desciam pessoas pelo canto esquerdo dela. Ele continuava falando depressa, tomando a parte da direita da calçada. Uma lixeira impediu com que eu seguisse atrás dele, fato que certamente me tomaria vários segundos de explicação daquele químico infame, então resolvi encurtar o caminho, contornando a lixeira pela direita, tomando o meio da rua por alguns segundos. Assim que me encontrei ao lado direito da lixeira, ou seja, no canto esquerdo do meio da rua, senti um machado descendo na minha nuca, sussurrando: "vem, tropeiro, vem!". Um ônibus descera a Senhor dos Passos a 60km/h, passando a uns 10cm do meu corpo.

Após a buzinada - e os gritos apavorados de quem viu -, saltei para a calçada, em cima da lixeira mesmo, como se adiantasse fazê-lo a essas alturas. Senti como se tivesse de fato morrido: o frio nas vísceras, o ventre vazio, a cabeça leve, as mãos trêmulas. Pensei somente na seguinte frase, com o sotaque do meu amigo Barradas: "Eu quase morri, cara...!"

Naturalmente, tomei a esquerda do meu professor, ainda fora de mim. Foi quando ouvi as primeiras palavras depois de meus desvareio: "entendeu?" - e pela primeira vez (que me lembre) ele parou e se dirigiu a mim, olhando nos olhos e sorrindo sem mostrar os dentes. Eu fiz que "sim" com a cabeça e voltei sem agradecer.

O desgraçado sequer percebeu.

7 comentários:

Marcelo disse...

puta que pariu!
quando ele perguntou "entendeu?" tu devia ter respondido: "O senhor é um baita filho da puta!" e saído andando

Fátima disse...

Lucas, eu também já enfrentei situações em que quase parti daqui para outra esfera. Cheguei a conclusão depois de vários exemplos na minha bem vivida metade de século e um pouco mais, que a senhora da foice só ceifa quando chega a hora do vivente. Essa tua experiência talvez só venha a confirmar isso, afinal cara tu não estavas na lista daquele dia. Quanto aos teus queridos que partiram, concordo contigo é difícil aceitar quando a colheita é tão prematura, também já vivi isso na minha família.Com relação ao professor, bem , será que ele sabe que é professor?

max disse...

Ba cara eu teria sido a Testemunha que o Ferrari além de não olhar para baixo, não saber explicar química, ainda consegue literalmente matar um aluno com suas explicações, husauhsauhhuashsa

max disse...

É legal postar aqui no "Be careful"
Abraço Lucas!

Diogo disse...

Fico triste pelo gauderião. Pensei nele ainda um dia desses, imaginando se vencera.

Sergio Trentini disse...

cara, escrita genial

Paulo Barradas disse...

Coisa boa quase morrer.