quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Visita Desgostosa

O amigo de um amigo meu andava com alguns problemas em uma região muito delicada, motivo pelo qual procurara um proctologista. Peço perdão pela provável falta de riqueza nos detalhes, a qual deve ser sumariamente compreendida.


E ele, receoso, fora até o hospital para que seu problema fosse resolvido. Era a primeira vez que consultava esse médico e - se tudo desse certo - a última. Procurou adiar essa visita por quase um ano, mas as dores que sentia acabaram assumindo um papel rotineiro. E foi.




Palhaço Cu-Doce, artista-plástico e humorista.


Assim que chegara ao hospital, orientado apenas por um papel que dizia as coordenadas e pelo nome do Doutor, procurara o tal Complexo 75 com muita timidez. Entrara pela porta da frente, olhara as placas e nada dizia; pesquisara muito, mas viu-se obrigado a perguntar a alguém logo de cara - o maior receio. Havia um senhor balconista em algum lugar do primeiro andar, e fora intensamente cauteloso:
- Com licença, o senhor sabe onde fica o complexo... - tivera uma idéia boa - o complexo 74?
- 74? Olha, não sei bem... o que é que o senhor procura? - diante das circunstâncias mais temidas, fez-se então de desentendido.
- Eu procuro os complexos acima de 70, sabe me dizer onde fica?
- Ah, deve ser então no terceiro andar à direita.
- Muito obrigado! - e subira faceiro.

Subindo lá, foi até o número 75 e sentou-se, junto de um casal (levando um bebê) e duas senhoras no final da vida. Aguardou, aguardou, aguardou... até resolver que talvez não fosse ali. Saiu então para pesquisar, e para tanto, lera o nome do Doutor pela primeira vez. O que vira o assustara de tal forma, que não menos assustados ficarão: Dr. João Romão. Este era o homem que guardaria o maior segredo deste sujeito. Lera de novo, com a esperança de ser míope. João Romão ainda o olhava profundamente, quase que grifado no pequeno papel e, se houvesse uma foto, certamente teria piscado.

Não era ali: ninguém levaria um bebê ao proctologista em casal! Antes de ler a placa, fora até o corredor de novo e olhara aos dois lados, não localizando nada que o indicasse o sinistro caminho a ser seguido. Porém, havia um balcão. E nele, duas jovens secretárias, bonitas e, naquele momento, muito intimidantes - era tudo que não queria ver. "Não, definitivamente não vou perguntar pra elas", pensou, dirigindo-se ao lado oposto do corredor com apenas duas palavrinhas em mente: João Romão.

O que fazer? Passara pela frente de algumas plaquinhas, nenhuma dizendo Proctologista. A hora da consulta já ia sendo ultrapassada, e pessoas de máscara passavam insistentemente pelo corredor, algumas repetidas... era hora de agir. Procurara por outros funcionários... mas todas as secretárias eram mulheres e jovens. "Grrr que raio de hospital só contrata mulher pra atender?" e, durante o desabafo orgulhoso, vira passar uma senhora de mais idade, de uniforme, aparentemente humilde - a famosa Tia da Limpeza. Nunca ficara tão feliz em ver uma integrante desta gangue que domina todas as instituições do Brasil, e por que não do mundo, sempre com sua humildade, sua graça, sempre discretas e não menos elegantes. Supõe-se que sejam a maior fonte de informação do local onde trabalham. A partir dessa suposição, e iludido pela ideologia que acabara de criar em segundos, foi em direção à tia com muita delicadeza, quase que aos sussurros - ela entenderia e teria piedade.

- Com licença... senhora...
- Oi, meu filho - disse ela em tom baixo, para a sua sorte.
- A senhora sabe onde fica o Dr... o Dr. João Romão...?
- Oi?
- O Dr. João Romão... a senhora sabe onde é?
- João Romão... hum... - com certeza fora só de sacanagem, mas ela fez a pergunta. - Qual a especialidade? - ficara extremamente envergonhado ao ter de responder àquela maldita pergunta que tanto evitara.
- Procto...
- AH, PROCTOLOGISTA! É ALI Ó! - disse ela, gritando pela primeira vez. Lembrou-se nesta hora de que, embora eficientes informantes, as tias ainda são humildes senhoras. Não agradeceu, preocupado com as pessoas que, ao seu redor, o fixavam com pena e muita graça.

Proctologista era ali. Uma placa gigante dizendo: Proctologia, Urologia e Ginecologia. Parece que recém a haviam colocado ali. Se soubesse que era tudo junto, perguntaria logo por urologia - ora, é menos... menos. Então, não havia mais nada a fazer a não ser sentar - com calma - e aguardar. E aguardou. Aguardou por muito tempo - muito tempo mesmo. Tão humilhado se sentia, que pouco se importava em sentar de frente ou de costas para o corredor, e acabara de frente, contemplando todos que por ali passavam - e diretamente o olhavam, com muita pena, ou com muita vergonha mútua. Para lembrá-lo de que aquilo era vergonhoso, passara pelo corredor aquela tia da limpeza, que, simpaticamente, perguntara em voz alta: "ACHOU?", ao passo que respondera que sim com a cabeça, e ela finalmente fora embora, falando consigo "é, João Romão, é..."

A questão é que o sujeito esperara ali por volta de 90 minutos, e um certo doutor chamava vários outros homens antes dele, cuja consulta já estivesse atrasadíssima. Será aquele homem robusto e intimidante o tal João Romão? O que esperava? É óbvio que era. E quando todos os pacientes foram atendidos, o Dr. Romão chegou até ele e, sem frescura alguma, afirmara:
- Espera só um pouquinho que eu acho que não passaram tua ficha pra mim.
- Ok. - e esperara por uns 5 minutos.
- Tu já passou ali no balcão? Tem que passar ali antes pra ser atendido, pra assinar o formulário...
- Ah, não passei...
- Ok, vai ali então e daqui a pouco te chamo.
- Vou. Obrigado. - e foi até onde o médico apontava. E querem saber onde era?

As gurias jovens e sorridentes o aguardavam sabendo de sua condição delicada. Compreensivas, ou não, tanto fazia, desde que tudo passasse logo e fosse para casa sofrer sozinho. Ela disse o preço, pagou. Assinou e fora mandado de volta ao local de espera. Fora triplamente humilhado, e, com mais calma ainda, tornou a sentar no sacrificante banco de espera. Vira, em alguns minutos depois, a moça passando por ele e entrando na salinha do Dr. João Romão, levando consigo uma pastinha com uma folha em cima, onde, em letras CICLÓPICAS, estava o seu primeiro nome. O que fazer, afinal?

A partir de então, assumira uma postura "moderninha", e encara tudo com muita naturalidade. Afinal, ''o que é um peido pra quem...'' Bom...




O resultado da consulta? Ah... nada muito surpreendente.

8 comentários:

Marcelo disse...

eu conheço esse teu amigo?

Paola disse...

o marcelo tentando disfarçar. ele deixou tu contar a história dele? haha :x

Diane disse...

quanto mais o amigo do teu amigo relutava, mais criativa a tua história ficava...
tu é muito bom em relatar as histórias dos outros ;]

um beijo

Marcos disse...

Ri alto com com essa parte :
"em letras CICLÓPICAS"
muito bom cara.

Lucas disse...

Acho que fui suficientemente claro quando disse se tratar de "um amigo de um amigo meu".

Marcelo disse...

o Paulo é teu amigo, e o alemão é amigo do paulo, logo o alemão é amigo do teu amigo!

Lucas disse...

É, mataste uma charada.

Diogo disse...

Pô, João Romão é sacanagem. Antes fosse um japonês.