sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Incidente no Shopping

Fui chegando ao primeiro posto Mc Donald's de dentro do shopping, aqueles que só vendem sorvete. Aguardei vários minutos na fila, ocasião que só ocorre quando a abstinência glicídica torna-se uma patologia.

Quando chegou minha vez, a surpresa:
- Não temos sorvete de chocolate, moço.
- Oi? Como assim?
- Só lá em cima, no outro quiosque.
- Hunf. Tá.

Contrariado, porém complacente, esperei na fila do elevador. Quando o primeiro chegou, depois de uns cinco minutos, todos da fila à minha frente entraram, menos... eu. Atrás de mim, notei uma senhora com um vestido de bolinhas radicais que reclamava muito do elevador que não chegava. Isso acabou por me contagiar, e comecei a ficar angustiado, o que me fez optar pela longínqua escada.

Caminhando pelo longo labirinto do Shopping Total, deparei-me com uma loja de camisas pólo, o que me chamou atenção - não pelas camisas, mas pela tela que passava ao vivo uma partida de Pólo (aquele hockey sobre cavalinhos). Não me era estranha aquela cena; lembro-me de ter feito isso várias vezes durante o ano, e curiosamente sempre pegava o jogo de pólo passando ao vivo. Não obstante, meus sonhos infantis foram destruídos quando, da vitrine, pude ver o dono da loja sacando o controle remoto e apertando o botão de pause, desligando um aparelho e retirando um maldito DVD. Então era esse o jogo "ao vivo" que eu sempre assisti com orgulho; uma verdadeira farsa, uma traição!

Saí desamparado daquele lugar e me dirigi à escada com pressa, apesar de o episódio anterior não ter me tomado mais do que um minuto. Ao alcançar as escadas, subi-as com certo vigor; não adiantaria nada chegar depois do elevador - iria ferir meu orgulho.

Assim que cheguei ao segundo andar, corri ao elevador para checar: a porta estava fechada. Sorri de prazer ao notar que fiz a escolha certa. Virei-me em direção ao segundo posto do Mc Donald's atrás do meu necessário sorvete de chocolate. Quando lá cheguei, tive uma desagradável sensação ao notar a senhora do vestido engraçado pegando um sorvete. Ela não só chegou antes de mim, como lhe seguiam três pessoas na fila. Fiz uma automassagem atrás da orelha para afastar a indignação e entrei na fila. Demorou muito para eu ser atendido:

- Chocolate nós não temos, senhor... só na praça de alimentação.
- Quê? A moça lá embaixo disse que vocês tinham!
- Pois é, mas desde ontem está em falta, e ela sabe disso...
- Grande. Vocês formam uma ótima equipe, parabéns - disse, indignado, seguindo em direção à parte mais distante do shopping: a praça de alimentação.

Nesta hora, eu quase desisti, confesso; mas a vontade de sentir o sabor do chocolate gélido e industrializado, cercado de trigo seco com açúcar, ah... essa vontade me fez seguir em frente, e fui.

No meio do caminho, porém, resolvi adentrar no famoso banheiro família. O segredo deste ambiente sagrado é que foi criado para uso coletivo, porém o grupo deve envolver crianças e responsáveis. Isso o torna mais limpo e mais relaxante, o que sempre me faz optar por lá. Chego perto da porta, olho para os lados - o banheiro masculino é logo ao lado - e , sem ver funcionários ou usuários dos outros banheiros, me enfiei lá dentro.

Ao trancar a porta, me deslumbrei com o brilho do local, que é tão grande quanto meu próprio banheiro. O espelho era enorme, havia duas pias e duas patentes - uma era infantil. Urinei com cuidado para manter a homeostase do ambiente e apertei a descarga após. Lavei as mãos em ambas as pias, usei tanto o papel quanto o secador e me obsevei por muito tempo no espelho. Quando estive seguro de que não precisaria mais usufruir de nada lá de dentro, resolvi abrir a porta. A surpresa foi que, pela primeira vez, o segurança estava exatamente na frente de tal banheiro, que é estrategicamente escondido. Era evidente que me chamaria a atenção. O inesperado - para ele - é que eu estava muito engraçadinho.
- O senhor sabe ler? - disse em tom grave, referindo-se à placa com os dizeres "Banheiro Família".
- Sei sim, o que é que o senhor não conseguiu ler?
- Quê?
- Pode dizer, que eu leio pro senhor.
- Não é isso, rapá! Tu não viu que esse banheiro é só pra família?
Inspirei, fazendo cara de compreensível.
- Pois é, eu sei sim.
- Então por que tu tava ali dentro?
- Porque eu moro sozinho!

O cara ficou alguns segundos sem resposta, tempo que usei para dar o fora dali. Provavelmente ele ficara pensando sobre isso por um bom tempo até perceber que foi feito de bobo.
Segui para a praça de alimentação com certa agonia; parecia que tudo estava conspirando para que eu não adquirisse o sorvete, o que me deu ainda mais ânimo para comprá-lo - questão de honra.

E fui. Chegando na praça, desviei dos maníacos que tentavam me obrigar a comprar em seus restaurantes, inclusive me segurando pelo braço. O Mc Danado's é a última loja, aos fundos do local. Lá, entrei em uma fila quilométrica para, horas mais tarde, descobrir que era a errada.
- A fila do sorvete é aquela ali, senhor.
Nem discuti. Só entrei na outra fila, respirando sangue.

Chegou a minha vez, ou quase; uma senhora passou na minha frente, e antes que eu pudesse dizer nada, ela foi atendida. O pedido dela era três casquinhas, ou mistas ou de creme, um McFlurry de Suflair ou Ovo Maltine e um copo d'água. Duas crianças e um velho batatudo surgiram atrás dela do nada. Conforme iam decidindo os sabores de fato, o velho ia alcançando às crianças, até ficar com um para si. Este processo de tortura me levou mais uns seis minutos, pelo menos mentais.

- E para o senhor?
Respirei fundo.
- Uma casquinha de chocolate.
O tempo parou por alguns segundos. Era como se eu visse tudo ao meu redor, e tudo me visse também, em movimentos circulares e em câmera lenta, de cima, de baixo, pelos lados... até um balde de água fria irromper-se sobre meu rosto.
- Não temos, só no quiosque um, lá embaixo, senhor.
Tremi.
- Peraí. Eu fui lá, eles me mandaram pro segundo, que também não tinha e acabou me mandando pra cá. Vocês tão me fazendo de palhaço?
Eu pude ouvir um "sim" escapando pelos seus olhos gosmentos, mas não teve coragem.
- Não senhor, desculpa... mas não tem mesmo, só lá embaixo...
- EU JÁ FUI LÁ EMBAIXO $#@&*!!!
- Calma senhor, não tem o que fazer, aqui não tem mesmo...
- EU TE VI FAZENDO UMA MISTA AGORA MESMO!
- Mista tem, senhor...

Eu quase infartei. Não entendo como funciona a tecnologia do Mc Diabonald's, e nem quis saber; só virei as costas e fui correndo para o quisque debaixo.
Ao chegar, vi um guri saindo com uma casquinha de chocolate nas mãos. Gelei de raiva. Sequer esperei a pequena fila que se formava.
- Olha aqui, o que tu pensa que tá fazendo?! Não disse que não tinha chocolate? Me fez subir e perder tempo duas vezes e agora tá servindo o que eu pedi pros outros?
Acho que me exaltei.
- Ah, desculpa senhor, eu me enganei... na verdade é no segundo quiosque que não tem chocolate...
- É, EU SEI!
- Eu vou fazer uma pra ti, peraí.
E, por algum motivo, as crianças da fila não se meteram na decisão.

Ela serviu uma casquinha cremosa de chocolate e me deu. Paguei e não proferi uma palavra sequer.

Na primeira lambida, a constatação:
O gosto estava tão neutro quanto um picolé de água benta.

9 comentários:

Diogo disse...

Essas coisas enlouquecem o sujeito. Já assistiu "Um dia de fúria"?

Lucas Di Marco disse...

ainda não, mas tá na lista dos recomendados pelo tio mottola

Diane disse...

nossa! tu ACHA que tu te exaltou? :P :P
o que tu vê no sorvete de chocolate do Mcqualquercoisa?


:*

marinhosaldanha disse...

Meu filho, sorvetes do MCDonalds são todos iguais, pede de baunilha e imagina que é de chocolate...

Liliane disse...

Fiquei imaginando a fisionomia do segurança com tua resposta e dei boas gargalhadas (ainda bem que eu sim moro sozinha, considerando o adiantado da hora e a altura de minhas risadas).
É muita vontade de comer sorvete de chocolate, e, depois de tudo, este ainda tinha gosto de 'água benta'?!?!?!?!?!?

Rafa Pissudão disse...

vidademerda

Barradas disse...

A escada é uma invenção antiga, simples, eficiente e confiável, além de duradoura.

Tu acha que escapou dos maníacos que tentam vender desesperadamente seus alimentos, mas o maníaco Ronald McDonald conseguiu o que queria, de uma forma crônica.

E além de manipuladora, essa é das poucas empresas GRANDES que priva os trabalhadores do direito à sindicância (informação um pouco antiga, mas ainda verdadeira na maioria dos países).

Perdão, hoje acordei meio vermelho.

Sugiro a leitura:
http://adagadeoccam.blogspot.com/2010/11/o-imperio-do-consumo.html

P.S.: Comi um McColosso há pouco tempo.

vinicio disse...

oi tudo que vc eta vendo pode ser verdade mas tambem pode ser mentira como outros sites como esse da aqui mas eu acho que vc sa sabe que
Um dia o mcdonlds falaram mentira para algumas pessoa que tentou trabalhar nele

Anônimo disse...

Cara vc poderia escrever um livro!!!