sábado, 11 de setembro de 2010

The Stalker (#2)

"E do meio do mundo prostituto, só amores guardei ao meu charuto"
Se não leste a primeira parte, não sigas.


Parte 6: A grande arte da profecia, em sua mais singela e inocente forma

Sentados no banco da praça, entre dois amigos quase sanguíneos, retratou-se a cena do que outrora lestes com detalhes e planos e esperanças... fez-se uma profecia. A de que, por puro sentimento inexplicável, o grande empecilho não tardaria a desmoronar, mas por conta própria, sem influência negativa. Ademais, este foi um dos assuntos discutidos: deixar que a natureza se suceda. Tanto quanto cresceu o primeiro musgo antes do gigante hotspot que hoje destruimos com grande vigor.
Não sei qual dos anjos malignos me ouvia, porquanto não fora minha surpresa menos eufórica que a de um cão no reveillon.

Parte 7: Mientras la observación diaria, aunque sea todavia gradual 

Dizia lá exatamente o que havia sido previsto um dia antes: o afastamento. E o coração (o próprio músculo estriado e involuntário) agitou-se com incredulidade; os olhos (os globos traiçoeiros) lubrificaram-se por si; e o leve sorriso involuntário invadiu-me o canto esquerdo da boca, como se um grande prêmio o antecedesse, e, ora, não pude disfarçar a satisfação. Eis-me, um ser humano completo, tanto quanto vós.
Não se pôde aguardar: e duas ligações foram feitas. 'Que tom alegre', me foi dito em ambas. Quanta discrição, meu amigo, dizia eu a mim mesmo. É provável que, fosse outra ocasião, fogos iluminariam o céu metropolitano. Pois, adicionou-se-a, tendo em vista o doce sentimento da liberdade mútua. Frases de incentivo à nova condição liam-se em suas próprias anotações, e isso tudo preocupava tanto quanto confortava; inexplica-se. Ainda assim, o dia mostrou-se tão leve quanto a sua razão.


Parte 8: A ansiosa espera, facilmente comparada ao sionismo

E assim foi a tarde de estudos. Sob consultas frequentes à rede. Por que será?

Parte 9: A primeira grande decepção

Como estivesse no caminho certo, uma pedra...
"Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas..."
Tornou-se uma pedra em meu caminho, um sujeito que sequer conheço e ao qual não atribuo valor algum. Aliás, em pensar no mal que a ela proferiu para que a decisão fosse tão de súbito tomada... um certo rubor odioso me sobe à face. Se dantes neutro, já então muro abaixo - que dúvida! Era só uma questão de tempo.
O tênue laço que os unia fora reatado; resta saber a tensão que há de suportar. Como uma corda no lustre, que outrora estendia um graveto, e agora procura equilíbrio sobre uma árvore inteira. Não mais sei a validade de ser "aquele que puxará o peso" afim de derrubar-lhe. Na outra mão, vejo-me com a mesma consciência retraída e favorável à ação natural, cuja lei, se age sobre uma colmeia, destinará um relacionamento. Outrossim, um longo passo adiantou-se, não sendo mais dois estranhos - e tal atitude fora tomada legal e rigorosamente dentro das leis sociais (durante o breve período de liberdade).


Parte 10: A primeira grande observação

Concedidas algumas regalias, pude observar com mais detalhes o brilho do alvo, e constatei algo tão delicado. Não fosse a minha péssima interpretação masculina, eu poderia JURAR que seus olhos são de cores diferentes. Sim: um do outro.

Parte 11: A grande inspiração a la Vinicius de Morais e Álvares de Azevedo (não mos comparando, por óbvio)


À noite me deixaram só, mas só já estava há muito. A tecla F5 fora minha companheira por algumas horas, até um instinto incomunicável tocar-me o peito, o que me levou a pegar uma cadeira e um banco. Coloquei-os ambos no pátio de trás. Trouxe comigo uma malzbier, mais doce que chocolate em pó, por pura falta de opção; pus-me a abrir, o que me deu um certo trabalho. Servi-me da doce negra e de um caderno, e junto de uma caneta os coloquei em cima do banco. Algo veio-me à cabeça: o que não fazia há tanto; ora, era mesmo uma ocasião deveras alternativa, então prontifiquei-me a pegar o charuto velho que guardava há três anos em uma gaveta obscura. Observei-o com o entusiasmo de um pré-adolescente diante de seu primeiro copo de cerveja, conquanto já não fosse lá uma novidade. O fósforo foi encontrado tanto depois, que se procurasse fazer fogo com gravetos teria ganhado alguns minutos. Pois, sentei-me na bruma da penumbra. Não citei o violão? Bem, está citado.
Passei a tocar uma música que não existe, a despeito do que me disse um futuro doutorando: "agora ela existe". Meu charuto traiu-me algumas vezes, posto que o sabor fosse, de tão ruim, peculiarmente saboroso. Brinquei com a fumaça densa que formava figuras abstratas diante da única luz acesa. Era como um sonho - efêmera e dispersante como um sonho. Goles e acordes após, algo triste deu-se à luz, até acabar o ardido e intrigante charuto com o qual não me acostumara ainda. Antes disso, fotografei - tanto o banco quanto o charuto em uso, não obstante não será esta aqui exposta. Um cenário depressivamente "bossa nova" (bem notado, aliás!).
E não fosse os sons do espetáculo dos ascendentes de meu companheiro viajante, algo triste vos apresentaria aqui. Isso não me abalou, de fato; não se faz um mundo em um dia, e não menos é a música para mim.

Parte 12: A segunda grande decepção

Apaguei o charuto antes do seu quinto final na própria garrafa. Desfiz-me das cinzas. Alcancei o objetivo ao me sentir sessenta anos mais velho - uma sensação ímpar. Pus-me a olhar ao redor. Foi quando baixei o pomo e concluí: sou um novato; não fosse, teria servido whiskey, e não cerveja.

Parte 13: O início, ou o fim?

O farol indica o caminho, sim, mas não por indicar - é preciso uma razão, ainda que ínfima. Um navio ou um bote: que diferença faz a quem se afoga, porquanto um vira o outro, e ambos viram na água?
Só o tempo não basta; é preciso um farol aceso. E eu o vi: um farol ofuscante no horizonte. Análogo, mantive meus pés atados ao chão da fina areia costeira enquanto o sol se punha. Senti a terra tremer sob meus pés.

E uma vez que a terra treme, há de vir um terremoto. Fato.

8 comentários:

Liliane disse...

Um mundo não se faz em um dia, nem uma música, nem sonhos.
Terremotos acontecem sempre, mas é preciso ter paciência...
O farol continua a brilhar!

Diogo disse...

A cada dia teus textos são melhores, mas esse foi um salto. Muito bem, Luquinhas, muito bem.

Lucas Di Marco disse...

Agora me emocionaste, queridão.
Um elogio desse tipo vindo de vocês é sempre algo para se orgulhar.

Costa disse...

"(...)não se faz um mundo em um dia, e não menos é a música para mim."

me ganhaste nessa.

che. os barcos viram, quem sabe nadar se salva

Juliane disse...

"Na época, lembro, virei-me para minha colega e comentei "temos uma revolucionária na sala""- Eu leeembro do teu olhar fixo de espanto e admiração ao mesmo tempo, quando ela disse isso... agora que sento mais pra tras ja te peguei umas 2x olhando fixamente pra ela, meio que querendo decorar os traços da presa... eu prometo que DESSA VEZ não vou fazer gestos constrangedores quando ela passar ok?hahahaha....Lucas, continuas um baita escritor. Sorte na colheita meu querido.

Marcos disse...

Torço por ti , rapaz.E que venha mais ótimos textos.

Abraços.

Fran disse...

É um início, com certeza um início... não desiste amigo :)

Lucas Di Marco disse...

Meus queridinhos, isso não é um jogo, nem uma aposta, ahhaha

Não precisa torcer, e não vou desistir. Mas agradeço a preocupação.