Daqui a poucos dias vou entrar em depressão por um longo período de tempo, ou não, ainda não sei. E antes que o Didi diga que estou exagerando e que tudo isso é frescura, hei de apresentar os motivos que me puseram a começar o post de hoje assim: vou-me mudar de quarto. Não fosse o bastante, de cama e de colchão. Cores, paredes, altura da televisão, posição do meu mapa, mesas a mais e a menos, fim do carpete (vê se pode!), mas tudo isso parece ser tão positivo, que tenho medo de sentir o que sempre sinto perante mudanças. Vontade de voltar atrás.
E meus comparsas sabem do que estou falando. Mudanças físicas, de móveis ou ambientes, mas mudanças eternas, mudanças que, aparentemente, jamais podem ser desfeitas. Sabem o que é isso? Passei a última década dividindo um quarto velho e amarelo com meu irmão, que vez em quando ronca, peida, arrota e sofre de algumas crises de sonambulismo. E nunca fecha a porta.
Um móvel alterado me causa uma dor existencial. Quando minha mãe inventava de mudar nossas camas de lugar, eu sofria tanto como se tivesse me mudado de lugar, de família, ou até sido mandado embora; mas depois de algumas semanas, me acostumava. E se alguém quisesse mudar...
O fato é que, a despeito de meus hábitos urbanos (de sempre optar por outro caminho, outra atitude, de mudar o jeito de andar, ou de mudar o trajeto do percurso), eu não gosto mesmo de mudar essas coisas "tocáveis", ou que pertencem a mim; e por que estou contando-lhes este terrível defeito homossexual que me aflinge? Bom, poucos de vocês devem saber que eu recentemente consegui quebrar a ducha de alumínio do meu choveiro. Não quero dizer como, porque não sei mesmo, e tampouco interessa a vocês. Nos últimos dias, passei convencendo minha mãe a comprar outra, já que, como ela quebrara, a água só saía dela, e não por cima. Além disso, após tantos anos com aquela ducha, que direito ela tinha de me abandonar? Eu queria tomar o mesmo banho que tomei durante os últimos 2000 dias, sem falhar! Mas não, porque ela quebrou!
- Comprei, meu filho.
- Ah, legal! Conseguiu achar?
- Só tinha essa.
Gelei. Essa é uma das frases que mais cavam minhas entranhas, dentre as centenas que ela consegue desferir ao melhor estilo Cowboy materno. "Só tinha essa" significa que não pode ser algo bom; é o que deu. Bem, a minha ducha de metal foi trocada por um lava-cu de banheiro público. E depois me perguntam "como que tu não gosta de mudanças?". Ora, se elas fossem boas!
Eu acabo de sair do banho. A pressão da água diminuiu; a cor dela não combina, sei lá, não parece combinar. Eu não me senti bem no único lugar que para mim era imutável. Protestar adiantaria? Não; então fiz um protesto silencioso, do tipo "vou mostrar a eles o que eu posso fazer quando estou com raiva". Uma das formigas que atacam meu box todos os dias passava ali pela parede, perto das torneiras, arrastando seu corpo minúsculo e vermelho. Eu nunca fiz isso antes, e esse era o grande motivo. Ademais, não me sentia legal, entende? "De fresco a selvagem... que mudança radical!". Então peguei-a em uma mão e a comi.
O gosto é terrivelmente azedo.
