quarta-feira, 29 de abril de 2009

Experiência Míope


Gostaria de entender por que as pessoas, quando ficam mais velhas, acreditam mesmo que a experiência que adquiriram com a idade é indiscutivelmente a melhor (e única) fonte de respostas. Acreditam mesmo que, por serem velhos, sua palavra é praticamente sobrenatural: faz até chover, e, se não chover, eles "já sabiam mesmo". O que eu nunca havia me flagrado é que, quanto menos a pessoa sabe, mais pensa que sabe - talvez seja algum mecanismo do cérebro humano para suprir a falta de conhecimento; é preciso ter muito cuidado com essas pessoas (péssima essa, né...).

Ocorreu-me tal indagação quando, agora há pouco, desci as escadas atrás do notebook para postar sobre um outro assunto menos importante. Na parte de baixo, próximo ao notebook, se encontrava Cleci (senhora que trabalha conosco desde que nasci e, por assim dizer, completamente íntima) em altos papos com a Rose (uma outra mulher recém chegada, uma vez que Cleci, devido à idade e às dores no corpo, já não dá conta de tudo). Rose só abre a boca para concordar com alguém (ela sequer cumprimenta), e isso se não fingir que não foi para ela. E era isso que ela fazia: concordava com Cleci, que aos berros expunha suas idéias mirabolantes com toda aquela certeza experiente. E eu, para não ser mal-educado, já que passava ali (e não queria me prolongar em nenhum assunto), resolvi tentar a sorte com uma frase simpática e, quem sabe, me deixassem subir de novo com o notebook em mãos sem perder muito tempo. Enquanto Cleci falava (ela fala muito alto), e a outra concordava (com a cabeça), eu me pronunciei:

- Para de mentir, Cleci! - ambas se silenciaram (ok, só Cleci se calou, já que a outra sequer tem orifício bucal). Esse era o momento que Cleci preparava a contra-resposta. A ideia era fazê-la retrucar algo engraçado e após calar-me, sorridente, subindo de volta feliz. Se isso, porém, me tivesse ocorrido, estariam lendo alguma outra porcaria, e não mais essa desgraça diária que costuma me acontecer, e que deve deixá-los com um leve sorriso de felicidade no rosto (vocês, meus três leitores), afinal, quem é que não gosta no mínimo um pouco de ver outro se fudendo?

De qualquer forma, é necessário descrever Cleci em poucas palavras: é uma pessoa maravilhosa, serve a mim como uma mãe e, volta-e-meia, aparece em meu quarto (sem eu pedir) com um lanche, suco de limão natural (por ela preparado) com gelo e um píres embaixo do melhor copo da casa. Obviamente, tem seu lado alternativo, ou não seria normal: ela fala demais. Não obstante, adora falar coisas para se aparecer para dos outros (isso a qualquer custo, acreditem), o que muitas vezes me deixa bem constrangido. Quando isso acontece, sempre procuro fazer cara séria para que ela perceba que não foi legal, mas aí vem mais uma característica deste símbolo doméstico: ela não entende gestos. Não importa o que eu faça, até mesmo palavras não são suficientes para fazê-la perceber, educadamente, que algo não deve ser repetido. É por isso que seu costume mais engraçado é o de contar piadas sem a mínima graça. Eu me refiro àquelas inventadas na hora sem final nenhum, nem mesmo um finalzinho desajeitado. Mas esse é o jeito engraçado dela, vá lá.

Uma mistura desses fatores alterna(nega)tivos é o que resultou em sua resposta, muito bem pensada:
- Lucas, às vezes eu tenho vontade de bater tão forte nessa tua bunda até esse negócio cair de vez.

Pausa dramática. Ela anda falando muito sobre isso nesses últimos tempos, inclusive na frente de minha namorada. Atribuo isso ao fato de ela possivelmente estar pensando que "estou crescidinho", já que, aos meus 16 anos, quando falava um palavrão dentro de casa, ela se apavorava, e dizia: "eu nunca ouvi tu falar isso antes!". Mas agora fora demais, caramba; havia ali, por mais que não se percebece, uma outra pessoa, sem a menor intimidade - mas era justamente isso que Cleci queria: aparecer para outrem. A conversa recém começara e eu não queria mais participar daquilo; pensei que ela poderia ter-se refirido ao notebook, que já estava quase em minhas mãos, e isso me confortou; no entanto, sabia que se tratava de minha virilidade, piada infame e sem a mínima graça (entre um guri e uma velha senhora). Fingi não entender, para dar-lhe uma chance de se redimir, ou de calar-se:

- Hã? - mas não adiantou.
- É, vou bater nessa bunda até cair esse negócio e nunca mais subir!

Se fiquei envergonhado? Bem, seja como me senti, o que acontece é que, pelo mínimo orgulho masculino que circula em minhas veias, teria que retrucar, assim como qualquer outro o faria:

- Não, Cleci. Isso não aconteceria nem com macumba. - e tentei me adiantar até a escada para evitar um "retruco". Infelizmente, não fui rápido o bastante.
- Nem com macumba ele sobe? Mas já tá nesse estado? - e começou a dar gargalhadas altas, olhando para Rose e repetindo (tática inviável de tentar fazer rir quem não riu dantes). Rose sorriu, apenas, por conhecer tratar-se de um assunto delicado. Eu percebi que, não importasse minha fúria, ela nunca perceberia que fez errado. Tentei subir rápido, mas ela não deixou, continuando - Lucas, eu tenho quase 50 anos... - e eu a interrompi dizendo que tinha corpo de 20; tentava ser simpático para acabar o mais rápido possível com tudo isso, mas ela, para variar, sequer me ouviu, afinal era hora de seu estrelato diário - ... eu tenho 50 anos! Sabe quando tu vai conseguir me ganhar? NUNCA! - e gargalhava - NUNCA!

Vou acabar esse post como Cleci acaba suas piadas.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Cabeça de Teta


Há duas coisas que me causam repugnância: insetos peludos voadores e escuridão. Relacionando-as, podemos notar que a maioria dos insetos peludos voadores são escuros, e na escuridão não podemos ver os insetos peludos, portanto, esse ecossistema me causa arrepios quase homossexuais (se tivesse a ver com sexo, mas não tem, ok?)

E foi agora há pouco, enquanto me lamentava por não ter nada de interessante para postar, que tive a certeza que há alguma força pró-postagens agindo sobre este blog. Aconteceu algo que me deixou muito infeliz, mesmo; mas como quase tudo de terrível que me acontece soa muito engraçado para os outros (pelo menos é o que noto quando conto tragédias e recebo risadas em contrapartida), resolvi transformar isso no post do dia. Mas qual a relação disso com o inseto maldito e as trevas?

Estava eu, depois de um dia condensado de estudos, na minha hora de lazer (às 22h), quando então sentei na cama com o laptop para me comunicar com o mundo. Abri a janela, para entrar a brisa úmida do sul, e esse talvez tenha sido meu maior erro do dia. Afinal, o que levaria alguém a pensar que abrir uma janela poderia lhe custar muita dor existencial? Com as luzes e o abajur ligados (eu realmente gosto de claridade), a atração necessária criou-se, e o tão asqueroso inseto peludo voou em direção à lâmpada. Isso me irrita muito. O que fazer para evitar o constrangimento de dividir meu conforto escasso com um animal indecente? Pegar uma meia suja.

E foi com esse artefato quase ignorado pela sociedade brasileira num fim de noite que meu drama alcançou o auge. Subi em cima da cama para alcançar o bicho com mais facilidade, pois ele voava ao redor da lâmpada como se fosse um animal. Ao subir, com a meia na mão, sacudi-a como uma perua louca em movimentos de vai-e-vem, mas o inseto conseguia desviar "com uma facilidade do caramba". E, pensando menos que ele, extremamente estressado, acabei direcionando toda a força numa "meiada" fatal, mas, para a minha infelicidade, acertei a lâmpada do meu quarto, que parou de funcionar na hora. Quase chorei, por vários motivos: primeiro, e crucial, por ter ficado sem a tão almejada iluminação; depois, por ter transformado a minha "hora virtual" em uma "hora de preocupação". Senti aquela típica preguiça de viver, sabem?

Pois bem, a notícia boa é que acertei o rapazote.

Tratei, então, de dar um jeito. Troquei os restos mortais da minha potente lâmpada de 200w por uma infeliz de 100. Não fiquei satisfeito: corri para o banheiro e peguei a que lá estava, também de 200, e troquei uma pela outra. No meu quarto, pareceu bem inferior à que antes estava, mas sei que é psicológico. O fato é que, durante essa função toda, senti uma dorzinha quase nula abaixo do dedo mínimo do pé direito. Inconscientemente, julguei ter pisado em um caco de vidro da lâmpada velha - a despeito de ela não ter quebrado. Depois de tudo ter se resolvido (ou pelo menos era o que eu pensava), sentei na cama com as pernas cruzadas e tornei a pegar o notebook, mas a dorzinha incomodava demais. Foi quando resolvi olhar para o pé pela primeira vez.

O bicho estava esparramado na sola do meu pé, com seus pêlos completamente dispersos (provavelmente era o que me causou a dor). Saí correndo frescamente até o box, onde lavei meu pé com água corrente e sabão dove (bem longe dos olhos). A dor aliviou, mas agora que sabia sua nojenta fonte, parecia ser bem mais significativa. Voltei ao quarto para me desfazer do bicho e percebi que ele ainda estava vivo - sim, eu tenho problemas com insetos, percebem? Ele espalhou o restante de suas toxinas pretas por uma área considerável da minha colcha. Fiquei muito triste ao ver essa cena lamentável, e já corri atrás de um pano úmido. Limpei e peguei o animal, levando-o até a patente. A vida dele estava em minhas mãos, e eu o matei por julgá-lo uma ameaça.

Uma ameaça ao meu ego.