Após o assalto emotivo, venho-vos apresentar a mais nova enrascada na qual nosso amigo (eu mesmo) se meteu.Tudo começou quando, faminto, dirigi-me ao restaurante de costume mientras dejaba la simpática clase de español e procurei a mesa mais confortavelmente afastada, pensando já no futuro.
O fato é que, entre o almoço e a aula da tarde, valham-se-me mais de duas horas de ócio, utilizadas - normalmente - para estudar e... bom, a princípio só isso. Pois, servi-me, comi rapidamente (como de costume), sobremesei após e dei-me por satisfeito: hora em que abri os livros.
Comecei a ler um longo texto de espanhol. Menos pela leitura cansativa do que pela noite mal dormida, não resisti e caí no sono ali mesmo, em cima do livro, deixando minha mochila (aberta, sim) na cadeira vazia ao lado. E sonhei; ah, como sonhei!
Quinze minutos depois, um (xulo) cutucão no ombro, seguido de uma voz com aquele suave sotaque maloqueiro, conquanto feminino:
- Ô moço, vai dormir aí com tua bolsa aberta?
- Hã? - disse, abrindo os olhos e formulando uma imagem embaçada de uma mulher simples, porém nada confiável.
- Se é outro, hein...
Dito isso, sumiu. Quando me recompus, olhei para minha mochila, de fato aberta. Olhei ao redor; ninguém nas mesas próximas. Minha carteira estava semiaberta e havia dinheiro para fora. Contei-o. Faltavam R$10,00 na quantia total, mas ainda sobraram R$ 20,00 em notas menores.
"Que alma caridosa!", pensei, "deixou dinheiro para eu pagar a conta!"
Logo me dei conta, também, que a doce ladra havia me acordado, avisando-me de um possível furto futuro. Não sei se por consciência pesada, ou por desejar monopólio criminal, exclusividade no roubo. Oh, minha solidária e ciumenta infratora, se leres isso um dia, saibas o quão agradecido fiquei, a despeito do desfalque, que me custou a impossibilidade de dividir os custos do ensaio daquela noite. Por outro lado, ao caminhar de volta ao curso, conformei-me facilmente com a seguinte consciência:
"Ela me acordou preventivamente, e eu lhe paguei o almoço. Estamos quites."
E, sendo assim, substituí a leve raiva destrutiva por um leve sentimento de... burrice.