Bem vindo à realidade, e a culpa é tua. Mas não te incomodes; hás de te conformar, e quanto mais sofreres por tua incapacidade, mais culpado de tudo serás.
Ora, quem seja. A quem importa o nome? O prólogo, a musa inspiradora? O culpado és tu, leitor; tu e teus semelhantes. Olha bem ao teu redor: teus móveis, tuas teclas, o próprio tecido que te cobre as vergonhas; o quão teu tudo isso parece? Quando fizemos nós, da matéria, nossa escrava? A nota com que compras teu leite sintetizava a glicose que corre em tuas veias; o papel com que limpas tua sujeira dispusera de raiz, e quem se importa?
Não bastasse, sentes nojo. Ah, nojo! Nojo do pobre, do sujo, do infiel? Tens por aversão um ideal; tens por ojeriza uma mania; tens pelo asco simpatia; afinal, tens nojo de ti mesmo, infeliz! O verme que degradará tua carne podre é o mesmo que comerá o indigente. O fungo que criará nas tuas orelhas fétidas visitara já a boca negra do escravo. O verme não faz distinção. Por ser inconsciente. Pois se consciente fosse, evitar-te-ia; o verme é que deveria ter nojo de ti. Ah, quem dera fosse eu um verme!
Pena tenho eu de mim, e antes fosse asco à vida: ao contrário, a exalto! A vida não é o homem, e o homem tampouco a vida: esta sim nos distinguiu; tão pouco vivo somos, que não vemos em nosso reflexo um animal. Não admitimos de nós mesmos um selvagem. E o que somos pois? Apontai-me quando, no universo, no cosmos, enfim, a criatura modelou o criador? Pensas tu em gente? Por óbvio pensas, se é que pensas! O coacervado nos deu a luz, que originou primeiro o verme, a minhoca, o besouro, a lesma molenga, o lambari, o sapo gosmento, o crocodilo, a galinha, o rato e, por fim, o ser humano. A natureza tende a ciclos - e de fato os fecha, como por exemplo este, começando e acabando a criação da vida por vermes. Nada mais somos.
E pois perguntas-me: "e o amor?". Amor? Como ousas pronunciar tão eminente palavra com tua boca imunda? O esgoto, por ti criado, fez-se tal qual reza tua fé: à tua imagem e semelhança. O amor, portanto, não pode ter origem em teu corpo sórdido, em teu seio execrável, em teu ego porco. O amor, "sentimento humano", dá-se entre almas, e não entre pessoas. E não me venhas com religiosidade! Entende por alma a mente pura, e por corpo, os olhos traiçoeiros. Estes só são dignos quando transparecem o brilho interior. E o coração? Apenas um músculo cansado, tão útil quanto um marca-passo.
Canibal! És um canibal da pior instância. Pois se não comes carne, comes do próximo a vida toda. Comes do próximo o direito de sorrir, o direito de ser, o direito de comer e de ser comido pela natureza. Criaste a religião, criaste deuses para justificar o vazio que tens dentro de teu cérebro evoluído, que é tão grande quanto irregular de nascença. O que te resta senão a morte? O que te resta, covarde?
Quando estiveres no leito, lembrarás estas frases, e, com orgulho, num último suspiro repitirás: "não desejo voltar, não quero ser testemunha da vergonha que somos à memória do universo. E quando por fim derrubarmos a última árvore e poluirmos o último rio, desejo ser o carbono vingativo que a natureza em vossas faces humilhadas certamente há de jogar."
Só então - nos teus últimos segundos - é que serás humano de verdade.