sexta-feira, 9 de abril de 2010

Assalto Emotivo

Esperei passar bastante do dia primeiro de abril para que me fizesse convincente, e acabei esperando demais. Acho que estou quase 80% recuperado e já posso postar sobre isso.
Fui doar sangue na segunda-feira, e, após, ganhei o dia de folga. Ainda meio tonto, resolvi pegar o ônibus no local onde considerava mais seguro: na esquina da Salgado Filho com a João Pessoa. Antes, resolvi checar a beleza ímpar da redenção.

"Tão perto de nós e tão longe de nossos olhos", lembro-me de ter pensado ao ver o laguinho brilhando entre as árvores. Atrás de mim, que estava parado ao lado de uma árvore, vinha um jovem negro vestido normalmente. Não desconfiei de nada. Porém, devido à vulnerabilidade de minha pessoa àquela situação, resolvi voltar à avenida antes que alguém me assaltasse. Neste momento, este sujeito começou a me chamar. Minha arma de choque estava no bolso; no entanto, optei por não atender ao chamado. Logo cheguei à João Pessoa de novo e me vi naquele velho dilema: subir o viaduto ou passar por baixo.

Observei por detrás de mim e ninguém suspeito havia. Apenas um cara meio normal e uma senhora. Subi o viaduto às quatro horas da tarde.

No meio do viaduto, o "cara meio normal", de uns 30 anos, boné para trás, aproximou-se de mim pedindo uma informação com sotaque nordestino. Nem desconfiei, mas, ainda assim, utilizei de recursos para confirmar.
- Boa tarde, pode me dar uma informação?
- Sim?
- Onde fica a Salgado Filho?
- A Salgado Filho... - disse ganhando tempo, observando suas roupas e sua expressão. - É reto aqui, na nossa direção. O senhor só precisa seguir andando e vai dar lá.

Ele ficou em silêncio andando ao meu lado. Nesta hora notei que havia algo errado.
- O senhor é de onde? - disse, tentando ganhar tempo até o fim do viaduto, apesar de saber que não daria. Ele ficou em silêncio. Após uns 5 segundos, resolvi repetir a pergunta.
- Sou da Bahia.
- E mora há quanto tempo aqui? - ele pensou antes de responder novamente. Vê-se que não estava preparado.
- Há um tempinho, vim por causa de uns problemas aí. - fiquei em silêncio. Não havia me convencido. Passei a andar a passos largos.
- Tá quente hoje né? - disse o homem. Foi neste exato momento que não tinha dúvidas do que iria acontecer. Se ele fosse baiano, estaria com frio, e não com calor.
- Tu não é da Bahia, né?
- Não, rapaz. E o seguinte - disse abrindo uma pochete e puxando um revólver -, se tu correr tu vai tomar.

Como eu já estava pronto, e estávamos na metade do viaduto, o choque durou menos de dois segundos. Fiz um sinal com a cabeça e ele guardou a arma. Comecei a tentar usar de psicologia e fator surpresa, minhas únicas armas além da de choque, que, convenhamos, não era aconselhável usar neste momento. Olhei nos olhos do assaltante e ri. Falei que sabia o que ia acontecer, e perguntei o que ele queria.
- Dinheiro.
Puxei do bolso esquerdo (o mesmo da arma de choque, que o infeliz não notou!) uma nota de R$ 20,00. Por sorte minha carteira estava totalmente rasgada, tendo-a deixado dentro da mochila, que estava nas minhas costas.
- Só tem isso?
- Eu devo ter alguns trocados - disse puxando uma nota de R$ 2,00 e uma moeda de R$ 1,00 - mas eu tenho que pegar ônibus.
- Relógio...
- Pode pegar, é 20 pila...
- Não dá nada. Celular?

Meu celular tinha menos de um mês, e foi o primeiro celular decente que eu comprei. Ainda não o paguei totalmente. Foi por este motivo que receei, e pensei em alguma maneira de mudar o foco. Olhando para a frente, e dando alguns passos adiante, recitei as palavras num tom doce de quem não estava preocupado.

- Essa vida dá dinheiro? - ele pensou uns segundos e respondeu.
- Dá, dá dinheiro sim, meu.
- Acho que vou te imitar então...
- É, mas eu vou te revistar, e se eu achar um celular vou te apagar.
- Não precisa perder tempo - disse estendendo a mão com o celular. Foi a única parte que me causou um certo frio, menos pela ameaça do que pela despedida do celular. A partir daí, comecei a fazer pressão psicológica.
- Cara, tu vai mesmo levar meu celular? Levei quatro meses trabalhando pra conseguir comprar (mentira), eu sou pobre, de Viamão...
- Tu é pobre?
- Sim, cara, eu sou de Viamão...
- Bah, eu não gosto de fazer isso...
- Eu sei que não, tu é um cara bom, eu notei isso.
- Sim, eu sou bom! Se eu vejo mendigo na rua eu dou dinheiro...
- Então cara, pra que levar meu celular? O relógio e 20 reais já não vale?
- Tu não tem nada de valor pra me dar no lugar do celular?
- De valor? - disse rindo - eu sou de Viamão, já disse... - adoro repetir isso.
- E essa corrente aí, é de prata? - disse apontando para a minha corrente de prata.
- Prata? Tá brincando, né? Se fosse prata não taria à vista...
- Então vamo ali no banco e tu saca um dinheiro pra mim, e devolvo o celular...
- Cara, eu não trouxe nem carteira, pode ver que to com a identidade no bolso (de fato estava, e mostrei).
- Ah, nem carteira? Então assim, vou deixar teu celular ali naquela lixeira (havia uma lixeira no final do viaduto, a uns bons 30m), tu espera um pouco e vai lá pegar, tá?

Eu sabia que nunca mais veria meu celular.

- Tá, valeu cara.
- Então tá, espera aí. - disse estendendo-me a mão. Apertei com o sangue frio. Ele então me abraçou estranhamente.

Como esperado, não botou na lixeira. Pegou o primeiro ônibus que viu na parada e foi-se embora.
Com meus R$ 4,00 (achei mais um depois), fui pegar um Tarumã para casa com minha arminha no bolso, pensando em mil maneiras diferentes de esfaqueá-lo. Meus batimentos estavam tão acelerados quanto aos de um defunto.

Antes de embarcar, liguei para a mamãe. De um orelhão.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Dois Poeminhas do Barulho

Aos leitores normais, peço que pulem este post, já que eu mesmo o teria feito. Só que num ímpeto inspirante, pus-me a compor um poema concreto e, sem querer, saiu-me um soneto de brinde. Tudo isso na viagem de vinda, hoje, às 7h da manhã. No lugar de postar duas vezes - aumentando-vos a tortura - agrupei-os em um post somente, para que logo estejam esquecidos no meio da minha rotineira mania de contar-lhes cada passo e tropeço que dou. Eis-los, pois.

Adepto ao Concretismo II 
Lucas Di Marco


O Próximo rei do Casaquistão
Promete alegria à Casa que estão
A próxima casa que
Promete uma cazaque
Próxima cazac e
Proxi cazac
Prozac


Soneto do Conselho 
Lucas Di Marco

Em breve partirei, não há escolha
Coberto de razão e sem orgulho,
Em um mês vindouro, talvez julho,
A rezar impressões em uma folha.

Posto tal soneto - à mão composto -
Sem mais interesse em utopias,
Já que me bastava se me lias
E não me bastava o próprio gosto.

Pois, busca nas letras alcançar
Delírios que o remédio já curou
Naqueles que entregaram a própria sorte;

Reflete, e se o desejo é matar,
Mata, dorme, goza e ri - acabou:
Essa vida só nos leva à morte.