sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Sopinha de Vovó

Hoje eu vinha vindo até a casa da minha avó após a aula, a convite de minha mãe, cujo carro havia estragado, e resolvera pedir socorro à mamãezinha dela (no caso, minha avó). Espera aí, me fiz confuso? Ah, lê de novo, esforça-te, porque eu não me esforcei!

Percebi quão semelhante é a cidade do campo ao me perder. Até agora tenho dúvidas de onde fui parar, mas agora (sentadinho e escrevendo em vez de estudar) creio ter estado na parte de cima do viaduto sob o qual pego ônibus diariamente há quase um ano. Penso isso porque, ao estar lá em cima, percebi que não era o viaduto que me levaria à vovó. É nesta linha que a Dona Fátima há de me perguntar: "e como tu sabias que não era o tal viaduto que precisavas estar?", ao passo que responderia: quando eu subi no pico do viaduto, resolvi (como de costume) "admirar" a "paisagem" olhando para o lado. E, lá embaixo, numa linha reta perpendicular e infinita, a uns 500m dos meus olhos, enxerguei o maldito viaduto da redenção, no qual eu pensava estar pisando. Além de me sentir um colono viamonense a perigo na cidade grande, a preguiça me fez acelerar o passo, afinal "mamãe e vovó estão esperando para o almoço".
Uns quinze minutos depois, estava em frente à redenção - contudo do outro lado da longa Av. Jopê, indo em sentido contrário ao centro. Dei uma parada no local um pouco anterior ao viaduto (o correto, dessa vez) e refleti sobre o que acontecera comigo naquele lugar há exatamente dois anos atrás, quando me levaram R$ 20,00. Botei a mão na cintura como reflexo de tal lembrança e, ao tatear a arma de choque que comprara desde o assalto, senti-me tão mais seguro e tão mais inseguro. No meio do viaduto (o da Redenção), resolvi olhar para trás e ver o antigo viaduto (o errado) do qual vim. A imensa distância que me separava dele alimentava minha imaginação, tal qual uma paisagem campeira, tal qual uma floresta, uma campina, uma savana pura: mas não, a selva era coberta de pedras.

Prossegui até encontrar uma rua chamada Rua da República. Pouco curioso, passei a me perguntar o porquê de aquela rua histórica se chamar República. Haveria uma antiga república lá? "Certamente", pensei, "...mas qual dessas casas históricas seria a antiga república?"; sim, porque se aquelas residências velhíssimas ainda possuíam suas janelas-de-porão, uma daquelas janelas era a janela do porão da república. Quase instantaneamente, associei o nome da placa azul à república romana. A palavra, como já sabido pela nossa mais nova amiga professora, vem do latim, Res Publica, e significa literalmente "coisa pública", ou "coisa de todos". Um local para se passar um tempo, um lugar de passagem, enfim. Não resisti e adentrei esta misteriosa travessa.

Dentre as inúmeras - e lindíssimas- árvores e as alternativas pessoas sentadas às mesas dos bares de lá, não achei resposta aos meus questionamentos, nem mesmo perante as mais históricas residências. Sob a chuva quente de POA, segui meu caminho até a esquina, onde percebi uma casinha em cuja pequena sacada vi um balde. Foi quando um flashback me rendeu tantas risadas, que as pessoas na rua também riram de mim. Lembrei-me de vários anos atrás, direto do túnel do tempo...
Paulo Barradas, eu e (confirmadamente) o ilustríssimo DIOGUINHO (love ya, dude!) andávamos, à noite, próximo a uma igreja, no centro de um vilarejo muito distante e pouco conhecido, chamado "Viamão" pelos nativos. Lá, salvo minha língua mordida, até mesmo as casas mais recentes se parecem com as históricas de Porto Alegre. Não lembro bem qual era nosso destino, tampouco importa; o que lembro é que passávamos em frente a uma dessas casas "antigas por excelência", em cuja sacada (a despeito de o pôr-do-sol já estar distante) havia uma moça limpando-a e também um balde. Esta não era uma casa qualquer: era o então point viamonense: uma pastelaria conhecida por Petiskeira, seja qual for a grafia açasçinada. Não rias ainda - os pastéis até que eram gostosinhos, às vezes. Naquela noite, porém, a pastelaria abriria de fato mais à noite, quando um "régui ixperto" ia tocar e "a fumacera" ia subir, "táligado?". Era para tanto que a moça limpava a sacada com seu balde d'água. Ao aproximarmo-nos, pois, notávamos um casal de velhinhos que foram até lá comprar seus pastéis-da-noite, e compraram-nos. Ao saírem, porém, uma cena tão comum quanto a de um pouso extra-terrestre passou diante dos nossos olhos; não me deixem mentir, amigos: a moça lá de cima despejou da sacada um balde cheio de água, e adivinhem onde a água todinha caiu? A pouquíssimos centímetros da cabeça da vovozinha, que, atônita, ficou parada, quase que em choque, ao passo que a moça (que eu lembre) lhe pedia desculpas de cima da sacada. Infelizmente (a velhinha deve ter-nos compreendido!) não pudemos conter o nosso id, que, às gargalhadas altas, comparava a cena aos melhores episódios de Chaves.

Ao voltar a mim, no tempo presente, tampouco contive as gargalhadas, no meio da rua da República, com seus conservadores moradores e algumas de suas vítimas, mendigando por ali. E assim que dobrei a Lima e Silva, "o pacificador", sob a chuva abafante, pude ouvir de uma menininha, ao atravessar a rua: "vamo, pai, essa chuva tá muito molhada!".

Entrei no Zaffari para comprar suco de laranja e na Alberto Torres para acordar minha mãe, que, conhecedora do filho que tem, descansara no sofá de minha vovó enquanto esperava por minha longa jornada costumeira.



(PS: eu não comi sopa neste dia)


terça-feira, 3 de novembro de 2009

O Banho Escuro


Deu vontade de quebrar o ritmo desvairadamente e vir conversar com meus poucos amiguinhos que restaram.

Ares estranhos têm tomado meus pulmões - contra a vontade de meu diafragma - desde alguns dias atrás, e coisas vêm acontecendo desde então.

A principal delas foi tomar banho no escuro.